Superar o capitalismo

Todas as medidas que defendemos podem ser realizadas nos marcos da ordem capitalista. Vários outros países dispõem de estruturas tributárias muito mais justas que a nossa, por exemplo. Entretanto, em várias ocasiões o capitalismo brasileiro se mostrou fechado a soluções razoáveis para os problemas causados pela sua própria lógica de funcionamento, o que nos dá a entender que os problemas causados pelo próprio sistema só poderão ser totalmente solucionados se superarmos esse mesmo sistema e o substituirmos por outro mais avançado.

O capitalismo, como formação social específica e como modo de produção da vida material, nem sempre existiu e nada garante que ele sempre deverá existir. Na verdade, se a lógica da acumulação capitalista durar muito mais tempo, é provável que não exista futuro para nós.

É irracional pensar que em um planeta com recursos naturais finitos nossas economias poderão crescer infinitamente, tal como é essencial para o sistema capitalista. Mas as irracionalidades do capitalismo não param por aí.

Mais de 50% dos postos de trabalho do Brasil poderiam ser substituídos por máquinas e computadores¹. Isso significa que a jornada de trabalho poderia cair até a metade, preservando-se os salários, e que se todas as pessoas tivessem emprego, todas as pessoas trabalhariam ainda menos. Mas não é isso que ocorre. A humanidade possui tecnologia para se emancipar do trabalho, mas nós continuamos amargando miséria,  desemprego e trabalhos cada vez mais extenuantes. Na lógica capitalista, o próprio desenvolvimento da tecnologia produz riqueza para os senhores das máquinas e, na mesma medida, extingue postos de trabalho e gera  pobreza para aqueles que as movem.

Muitos defendem que no capitalismo o indivíduo é “livre” para fazer a própria sorte, mas se deixamos correr solto o livre mercado, o que vemos é cada vez maior concentração de poder e riqueza nas mãos de poucos, ao passo que as condições de vida da maioria se deterioram. A verdade é que não se pode falar em “liberdade” quando o que se vê por toda parte é o medo da miséria e a escravidão assalariada de gente que trabalha, trabalha, trabalha e ganha o que mal dá para o fim do mês.

Chegamos também ao ponto em que algumas poucas corporações controlam a economia global², vergando as regras do livre mercado ao peso dos monopólios. O nível de concentração de riqueza é tão alarmante, que 8 pessoas detém tanta riqueza quanto metade da humanidade³, ao passo que bilhões de outras pessoas padecem de doenças curáveis, fome e guerras causadas pelo impulso de acumular sempre mais.

A raíz de todos esses males é a propriedade privada dos meios de produção, isto é, a propriedade privada das terras, fábricas, máquinas, equipamentos, conhecimento científico e tecnológico, redes de distribuição, infraestrutura, insumos etc. É a propriedade privada dos meios de produção que submete os despossuídos à necessidade de trabalhar em condições estipuladas por outros. É a propriedade privada dos meios de produção que determina quem pode e quem não pode trabalhar, quem será miserável e quem será um escravo assalariado, quem terá meios de subsistência e quem não terá, quem terá propriedade privada dos bens e serviços disponíveis na economia e quem não terá. É o imperativo da propriedade privada dos meios de produção que determina quem pode viver em paz, apenas sob o domínio da propriedade privada dos meios de produção, e quem deve viver em guerra até que se assente um novo domínio da propriedade privada dos meios de produção de determinado país. É a propriedade privada dos meios de produção que determina o que será poluído e o que será poupado, o que será esgotado e o que será preservado. E contra todos os alertas, é a propriedade privada dos meios de produção e o impulso de haver cada vez mais propriedade privada dos meios de produção que determinam que a atmosfera de nosso pequeno planeta deverá ser saturada de gases de efeito-estufa, o que coloca em xeque a própria existência humana na Terra.

Assim, impõe-se pensar que a essa altura da história humana cooperar é mais importante que competir e dividir é mais importante que somar. Isto é o mínimo. São esses valores que norteiam uma política econômica da maioria, mesmo nos marcos do capitalismo. Mas não devemos perder de vista a necessidade de arrancar nossos males pela raiz.

Referências

1 McKinsey Global Institute, 2017: https://goo.gl/Tgiecx

2 BATISTON, STEFANO; GLATTFELDER, JAMES B.; VITALI, STEFANIA, The network of global corporate control,2011: https://goo.gl/GiaQ45

3 OXFAM, 2017: https://goo.gl/wuuEew