Uma alternativa ao desenvolvimento: cooperar e não competir, consumir e não destruir

Uma política econômica da maioria é uma alternativa de desenvolvimento. Isso significa estimular o desenvolvimento do Brasil sobre bases capitalistas, valendo-se para isso de meios políticos disponíveis e que podem ser criados.

Entretanto, o capitalismo é marcado por contradições incontornáveis, desenvolvendo-se conforme uma lógica essencialmente excludente e autodestrutiva. Isso significa que nossos esforços de desenvolvimento devem apontar na direção da superação do capitalismo, isto é, para uma alternativa ao próprio desenvolvimento capitalista.

Nós olhamos para o fundo do abismo social criado pelo capitalismo e esse abismo nos olha de volta, interpondo-nos a disjuntiva entre o socialismo e a barbárie: ou permanecemos presos na lógica da exploração do homem pelo homem ou avançamos na criação de uma sociedade baseada na propriedade comum dos meios de produção, no planejamento racional da economia, no acesso igualitário às condições básicas de sobrevivência e na qual o desenvolvimento tecnológico sirva crescentemente para libertar por igual todos os seres humanos do fardo do trabalho e não apenas uma minoria rica.

Esta sociedade não será fruto da boa vontade, nem das simples "ideias" dos socialistas. As condições para a sociedade socialista não podem ser criadas do nada, devem ser gestadas objetivamente, no terreno do presente.

Uma sociedade autenticamente socialista é impensável sem a presença de quatro elementos básicos que podem amadurecer ainda sob o quadro das relações capitalistas de produção: 1. Forças produtivas desenvolvidas. 2. Capacidade de planejamento e execução estatal. 3. Organização autônoma da classe trabalhadora. 4. Existência de outros países em processos políticos similares.

Isso significa que ser concretamente socialista é defender as políticas que deem livre curso a esses quatro elementos. É nesse ponto que uma alternativa de desenvolvimento é, dialeticamente, uma alternativa ao próprio desenvolvimento. Uma política econômica da maioria alteraria drasticamente as condições de possibilidade para o socialismo, pois tem como objetivo fortalecer, no aspecto econômico, cada um dos elementos concretos constitutivos da transição socialista.

Por outro lado, a resistência burguesa contra um projeto consequente de desenvolvimento para o Brasil não nos priva da obrigação de seguir defendendo este mesmo projeto, pois se não avançamos objetivamente, a verdade intrínseca das nossas propostas faz também avançar a consciência política no sentido da necessidade de ruptura. E avançar no caminho do convencimento, da politização, do envolvimento, da participação, da organização, da deliberação coletiva significa avançar democraticamente no caminho do socialismo, de modo que um socialismo assim conquistado não prescindirá da democracia.

Mas, para romper com o capitalismo, apenas dar livre curso a esses elementos não basta. É preciso afirmar aquilo que o capitalismo, pela força própria, não é capaz de oferecer. Paralelamente a um projeto de desenvolvimento, é preciso defender alguns valores e medidas efetivas que apontem para os limites sistêmicos da lógica do capital.

É preciso usar a capacidade de investimento público para fomentar relações de produção solidárias. A única alternativa concreta a um modo de produção baseado na anarquia de mercado é desenvolver células produtivas que funcionem numa lógica não-capitalista. Ou seja, é preciso cooperar e não competir! A guerra de todos contra todos que marca o modo de produção capitalista é a raíz das suas próprias crises e a razão pela qual neste modo de produção o crescimento exponencial da riqueza para poucos é o crescimento proporcional da miséria para muitos.

Além disso, o capitalismo chega cada vez mais a um limite externo potencialmente intransponível, posto que a acumulação capitalista, baseada sempre no maior lucro possível no mais curto prazo, é incompatível com a sustentabilidade ambiental. Defender “sustentabilidade” sem hipocrisia implica romper com a própria lei da acumulação do capital, de modo que possamos consumir e não destruir, isto é, planejar a economia de maneira racional, consumindo apenas na medida da capacidade de renovação dos recursos naturais e respeitando a manutenção do equilíbrio ecológico. E, mais um vez, é preciso dizer que apenas o poder público, guiado pelo interesse comum, é capaz de se orientar não pelo lucro mesquinho mas pelo bem-estar social, com medidas efetivas para alteração da matriz energética da economia, por exemplo, ou regulando progressivamente o mercado para transformar hábitos de consumo.