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O que é a classe média?

Alguns analistas afirmam que um dos grandes legados dos governos petistas ao longo de seus 13 anos à frente da Presidência da República seria a ascensão de milhões de brasileiros à classe média. Mas o que é de fato "classe média"?

No modo de produção capitalista existem duas classes sociais fundamentais: a daqueles que exploram a força de trabalho e possuem a propriedade dos meios de produção (fábricas, maquinário, insumos, etc.) com a intenção de extrair sempre mais e mais valor sob a forma de dinheiro - os capitalistas - e a daqueles que vendem sua força de trabalho para sobreviver e que produzem para os capitalistas muito mais do que o necessário para sua própria sobrevivência - os proletários. 

Esta divisão era muito clara nos principais países capitalistas no século XIX, onde a maior parte da população trabalhava em regime análogo à escravidão nas indústrias, com jornadas de trabalho muitas vezes superiores a 16 horas! Em decorrência das transformações no capitalismo ao longo do tempo, as relações entre as frações internas a essas duas classes se tornaram bastante complexas. As frações dominantes do capital passaram a ser aquelas não envolvidas diretamente na produção de mercadorias na indústria e sim vinculadas à concentração de valor na esfera financeira, bem como a classe trabalhadora foi sendo paulatinamente pulverizada no setor de serviços, empregada majoritariamente pelo pequeno e médio capital e no microempreendedorismo.

Além disso, desde que o capitalismo existe surgiu uma divisão entre trabalhadores "braçais" e aqueles que ocupavam cargos de supervisão, gestão, coordenação, administração, etc. Os primeiros operam as máquinas ou exercem sempre as mesmas operações no processo produtivo da manufatura ou de circulação de mercadorias e serviços e recebem salários menores ou não mais do que o necessário para a simples reprodução da força de trabalho. Os trabalhadores que exercem funções "intelectuais" ou mais especializadas recebem salários maiores e, assim, possuem algum poder de poupança e investimento.

A classe social, assim, está diretamente ligada ao papel exercido por um conjunto de indivíduos ao longo do processo produtivo ou de circulação de bens e serviços. De modo que podemos dizer que um vendedor ambulante, mesmo que não tenha patrão, se assemelha muito mais a um trabalhador, afinal, seu trabalho é escoar a produção industrial, sem custo ao proprietário das fábricas dos produtos que ele vende, sem garantias trabalhistas e por um rendimento comparável à média dos outros trabalhadores. Mesmo que esse vendedor ambulante possa às vezes ganhar um pouco mais e começar a se achar portador de um pequeno capital. Também um morador de rua, a princípio, mesmo que não esteja inserido no mercado de trabalho, pertence à condição proletária, isto é, não possuir nada senão sua força de trabalho, que pode não ser contratada ou pode não ser vendida. 

Mas, feitas essas considerações, o que é afinal a "classe média"?

O que chamamos "classe média" não é uma classe social e sim uma mescla entre alguns setores da classe trabalhadora e do pequeno capital que possuem uma renda maior do que a necessária para a sobrevivência num padrão médio de vida, possuindo assim algum poder de poupança e investimento, hábitos de consumo exclusivos em relação ao restante da população, tendo normalmente maior escolaridade e formação profissional mais elaborada. 

Além disso, se falamos dos trabalhadores assalariados desse estrato, podemos dizer que pertencem à classe média aqueles que ocupam funções ditas "intelectuais", ou são profissionais liberais subcontratados, ou ocupam alguns postos na burocracia estatal, vendo-se, por essa razão, mais como parceiros nos interesses do capital do que como oponentes, e que por possuírem algum poder de poupança escutam com mais atenção ao discurso da meritocracia. 

Logo, não existe a tão propagada "classe média". No capitalismo, ou você vende sua força de trabalho ou você a explora. E assim como no século XIX, a esmagadora maioria da população é formada pela classe trabalhadora.

FAIXAS DE RENDA

Segundo a má sociologia dos governos petistas, "classe média" seria definida tão somente por uma faixa de renda. 

Em maio de 2012, a SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos), ligada à Presidência da República, divulgou novos critérios para a definição do que seria a "classe média", dividida entre a baixa classe média, com renda per capita entre R$ 291 a R$ 441 (em valores atualizados, R$ 395,78 a R$ 599,79)*; classe média, com ganho entre R$ 441 a R$ 641 (R$ 599,79 a R$ 871,81)*; e classe média alta, com rendimento entre R$ R$ 641 a R$ 1.019 (R$ 871,81 a 1.385,91)*¹.

A partir desses critérios fica fácil entender porque o Governo Federal vinha propagando aos quatro ventos que tinha conseguido um milagre social. É que para ele uma família formada por 4 membros e com um rendimento de pouco mais de R$ 1.580,00, pertence à classe média! Assim como um casal que vive com um salário mínimo. É evidente o engodo face ao preço surreal dos alugueis, ao peso da inflação e dos precários e insuficientes serviços públicos.

POR QUE A "CLASSE MÉDIA" SE ENXERGA COMO ELITE?

O capitalismo brasileiro tem como traço distintivo a superexploração da força de trabalho, isso devido à sua herança colonial (o país com o mais longo período e último a acabar com a escravidão nas Américas, 2/3 da nossa história) e à sua posição geopolítica dependente. Ou seja, no Brasil, em geral, paga-se pela força de trabalho menos do que seria necessário para a manutenção de um padrão adequado de vida. Que o salário mínimo nominal seja 4 vezes menor do que o salário mínimo necessário calculado pelo DIEESE² atesta isso. As favelas nas franjas de todas as grandes cidades também expressam intuitivamente isso. 

Assim, não é difícil perceber porque o simples fato de ter algum poder de poupança e ter condições de vida e de trabalho melhores que a maioria faz com que uma parcela da população se ache “a última bolacha do pacote”.

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