Sobre correlações e causalidades

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Todos já devem ter ouvido falar que no passado muitas civilizações praticavam sacrifícios (muitos deles humanos) posteriores a fenômenos catastróficos (terremotos, enchentes, epidemias) como uma espécie de oferenda aos deuses que, tomados pela ira, castigavam os povos com tais catástrofes.

Pode-se tomar este exemplo como uma forma rudimentar de correlação sem causalidade, ou em outras palavras, uma correlação espúria: se há desastres sobre o povo "x", é porque algo que foi feito por alguém do povo "x" ou pelo povo "x" como um todo enfureceu os deuses.

Isto é até natural, diante da ignorância de tais povos acerca do mecanismo de funcionamento destes fenômenos naturais, que só vieram a ser esclarecidos séculos depois, a partir da sistematização do conhecimento científico.

Entretanto, é comum que correlações sem causalidade sejam utilizadas para reafirmar e defender sistemas de crenças, com ares de "ciência", já que numa primeira análise, se há uma correlação entre duas variáveis, é possível que haja um nexo causal entre elas.

Mas será que é simples assim? Basta comparar duas variáveis, estabelecer a correlação estatística e assim se prova a causalidade entre elas?

Vejamos então alguns exemplos absurdos¹:

- Correlação entre gastos com ciência/tecnologia e suicídios por enforcamento, estrangulamento e sufocamento nos Estados Unidos entre 1999 e 2009 = 0.99.
- Correlação entre consumo per capita de queijo e mortes causadas por amputamento nos Estados Unidos entre 2000 e 2009 = -0.97.

Alguém é capaz de explicar o nexo causal entre estes pares de variáveis? Será que os gastos em Ciência e Tecnologia (C&T) tem alguma relação com suicídios por enforcamento, estrangulamento e sufocamento? Em caso afirmativo, deveríamos parar os investimentos em C&T para poupar vidas humanas! Ou devemos enriquecer nossa dieta com queijo para evitar mortes causadas por amputamento!

Estes são apenas dois exemplos de correlações espúrias, posto que não há razões para crer que haja um nexo causal entre os pares de variáveis citados.

Dito isto, um artigo do ILISP - Instituto Liberal de São Paulo "bombou" as redes sociais recentemente, pois afirmava que após a onda de desestatização e redução do estado, SP se torna o estado mais seguro do Brasil².

Segundo o artigo, o sucesso de SP se explica pelo Programa Estadual de Desestatizações, através do qual foram privatizadas rodovias, a SABESP, a CPFL, o Banco Nossa Caixa, etc, fazendo com que o Estado arrecadasse R$ 32,9 bilhões com tais privatizações em valores da época.

Assim, "com menos responsabilidade na mão e mais recurso em caixa", foi possível investir mais em Segurança Pública e Educação, reduzindo a taxa de assassinatos no estado em 44%, ao passo que "20 estados brasileiros tiveram crescimento da violência".

Parece convincente, não? Um estado que reduziu seu "tamanho" e passou, portanto, a investir mais em segurança e educação e assim se tornou o estado mais seguro do Brasil. No entanto, a despeito de ser uma "meia verdade"³ muitas perguntas ficam no ar, sendo que destacaremos as duas principais, ao nosso ver.

Em primeiro lugar, a onda de desestatização ocorreu em praticamente todos os estados da federação, no contexto da renegociação das dívidas estaduais com a união4. Em troca da renegociação, o Governo Federal impôs uma agenda de privatizações e de redução de gastos com pessoal (arrocho salarial, programas de demissão voluntária etc), aceita pelos estados que se encontravam com a "faca no pescoço".

O próprio Estado de SP, que renegociou sua dívida com a união em troca do PED e outras medidas de caráter neoliberal (redução do "tamanho" do Estado), passou a dever R$ 46,2 bilhões (em valores da época) a serem pagos em 30 anos. No entanto, 15 anos depois, a dívida já passava dos R$ 190 bilhões, pois apesar de todos os pagamentos mensais realizados no período, o valor necessário para amortizar o empréstimo quase sempre foi superior ao valor pago pelo Estado, em função das condições draconianas do refinanciamento realizado5.

A abundância de recursos decorrentes da redução do tamanho do Estado é, na verdade, uma mentira. Empresas potencialmente lucrativas, como a SABESP e a Nossa Caixa, foram entregues ao setor privado, que aufere grandes lucros com tais empresas e infraestruturas, ao passo que SP ficou com uma dívida que sequer consegue pagar. Tal fato é comprovado pela recente renegociação das dívidas dos Estados e Municípios com a União, já que a capacidade de pagamento dos entes federados estava muito aquém da capacidade necessária para quitar os contratos no prazo estabelecido6.

Em segundo lugar, há que se considerar as fortes suspeitas de um "pacto informal" entre Governo do Estado de SP e o Primeiro Comando da Capital, uma organização criminosa influente e poderosa que controla a quase totalidade dos presídios do estado, assim como a distribuição e venda de drogas ilícitas em SP. Tal acordo, além de ter permitido a "pacificação" dos presídios do estado, também provocou a queda drástica de homicídios decorrentes de disputas territoriais entre facções de traficantes rivais, ao contrário do que ocorre no Rio de Janeiro, por exemplo, onde é latente a disputa entre Comando Vermelho e PCC atualmente7.

A lista de problemas entre essa correlação espúria publicada no portal do ILISP pode se alongar bastante. No entanto, não é o objetivo do presente texto desenvolver uma lista exaustiva sobre as contradições do artigo em questão.

Obviamente em nenhum momento dissemos que investir em segurança pública não tem o poder de reduzir a violência. No entanto, para comprovações deste tipo, são necessárias análises mais aprofundadas que levem em conta a complexidade da realidade, para além da tentação de correlações toscas que se acomodam confortavelmente em nossos sistemas de crenças.

REFERÊNCIAS
1 Exemplos retirados de: http://bit.ly/2eSnZPS
2 http://www.ilisp.org/noticias/apos-desestatizar-e-diminuir-o-estado-sao-paulo-se-torna-o-estado-mais-seguro-do-brasil/
3 "Secretário erra ao dizer que SP tem melhores indicadores criminais do país", por Pública - Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo:http://bit.ly/2vD02Xa
4 Uma boa análise do processo de renegociação das dívidas estaduais é encontrada no livro "Dívida dos Estados", da Auditoria Cidadã da Dívida:http://bit.ly/2iRIIYF
5 Para um breve histórico da Dívida Paulista, recomendamos o link a seguir: http://bit.ly/2vVZoj4
6 http://bit.ly/2gD5tin
7 Para aprofundamento no tema, sugerimos a leitura da Tese de Doutorado de Camila Caldeira Nunes Dias: http://bit.ly/2gvkeQx, ou em entrevista da mesma pesquisadora disponível no youtube:http://bit.ly/2gvcga6