Por que socialismo?

(0 comments)

Segundo estudo da Consultoria McKinsey, mais de 50% dos postos de trabalho no Brasil poderiam ser substituídos por máquinas e computadores¹*.

Isso mesmo, já temos tecnologia suficiente para reduzir à metade o trabalho humano necessário em nossa sociedade.

Significa que quem hoje trabalha 8 horas por dia poderia trabalhar apenas 4 horas, preservando-se a mesma quantidade de bens e serviços ofertados e distribuindo-os de modo mais justo. Se compartilhássemos o fardo do trabalho com aqueles que se veem excluídos pelo desemprego, poderíamos trabalhar ainda menos, ofertando a mesma quantidade de bens e serviços e distribuindo-os de modo mais justo. Mas, se depender do capitalismo, isso não vai acontecer.

FORÇAS PRODUTIVAS X RELAÇÕES DE PRODUÇÃO

Isso nos leva à tese central do socialismo científico de Marx e Engels, que é a do uso da ciência e tecnologia na produção econômica para emancipar os trabalhadores.

"Socialismo", para esses autores clássicos, não era uma simples ideia ou "utopia". Não se tratava de afirmar um plano perfeito que deveria ser imposto, de fora, pela boa vontade dos seres humanos e assim viveríamos felizes para sempre.

Ao estudar a origem e o desenvolvimento do capitalismo na Europa, Marx percebeu que a socialização da produção, pelo contrário, seria obra do próprio modo de produção capitalista, que pela primeira vez na história teria dado um "caráter social" à atividade econômica como um todo. Mas o que isso significa?

Com o capitalismo, pela primeira vez estabeleceu-se uma interdependência econômica definitiva entre os indivíduos. Dada a generalização das relações de produção capitalistas, suplantou-se a relativa autossuficiência própria aos servos no modo de produção feudal. Além do excedente que os camponeses eram obrigados a produzir para a aristocracia feudal, eles produziam para si mesmos, no geral, o conjunto dos seus meios de subsistência, de modo que as trocas desemprenhavam um papel secundário nessas economias.

No capitalismo, o acesso aos meios de subsistência só se dá mediante os salários, de modo que para ter acesso à comida, às roupas etc., o trabalhador deve necessariamente fazer compras. Assim, a produção dos meios de subsistência é diretamente "social" e não mais familiar.

Porém, no capitalismo, assim como no feudalismo, apesar de a produção ser "social", o excedente econômico produzido pelos trabalhadores continua a ser apropriado privadamente, não mais pelos senhores feudais, mas pela burguesia, ou seja, pelos donos dos meios de produção (máquinas, instalações, terras, insumos etc.).

Esse excedente econômico é apropriado pela burguesia sob a forma de trabalho não pago. Em resumo: o salário pago ao trabalhador mal dá, muitas vezes, para ele se manter vivo; no entanto, o trabalhador, em sua jornada, produz muito mais do que seria equivalente aos seus meios de subsistência. Assim, o capitalista paga pela força de trabalho muito menos do que ele recebe em troca dessa mesma força de trabalho. E tem gente que diz que o capitalismo é baseado em "trocas justas".

Cabe dizer que, historicamente, a propriedade privada dos meios de produção não foi fruto do trabalho duro de empresários visionários... Inicialmente, a propriedade privada foi arrancada pela luta política entre a burguesia e a aristocracia feudal e por métodos brutais de expulsão dos camponeses de suas terras, para que nas cidades eles virassem trabalhadores sem nenhuma outra alternativa que não vender sua força de trabalho aos empresários.

Num segundo momento, a propriedade privada dos meios de produção se consolidou por meio da mais brutal exploração da força de trabalho, em jornadas que chagavam muitas vezes a 18 horas diárias, pagando salários de fome.

Por fim, a propriedade privada dos meios de produção se consolidou com o uso das máquinas, que levaram os capitalistas a outro patamar de lucratividade e de acumulação de riquezas.

Assim, o regime de trabalho coletivo próprio da grande indústria e a ampliação do uso do conhecimento humano universal na produção deram à produção capitalista um "caráter social" definitivo.

Sob a dominação do capital, os ganhos de produtividade do trabalho social mediante a cooperação coordenada dos trabalhadores e o uso da ciência e tecnologia não servem para fazer com que o conjunto da sociedade trabalhe cada vez menos, deixando que as máquinas reproduzam nossas condições de vida material, ao passo que teríamos mais tempo livre para nosso desenvolvimento como seres humanos.

Pelo contrário, o capital, em seu impulso constante de expropriação privada do excedente econômico socialmente produzido, vê com bons olhos o desemprego produzido pelo uso da maquinaria, pois isso possibilita pagar os salários mais baixos possíveis aos produtores da riqueza.

Ao mesmo tempo, os capitalistas apenas investem em tecnologia se isso for mais barato do que pagar salários de fome aos trabalhadores. De modo que o próprio capitalismo põe um freio ao desenvolvimento tecnológico que poderia emancipar a todos do fardo do trabalho para simples reprodução da vida.

Estima-se que apenas entre 2015 e 2020, o mundo "perderá" para a automação mais de 7,1 milhões de postos de trabalho¹.

Vale observar também que se ocorre o investimento tecnológico no capitalismo, postos de trabalho são extintos, entretanto, os próprios trabalhadores não são extintos. Assim, na mesma medida em que as máquinas produzem abundância, aumenta o pauperismo.

Além disso, cada vez mais o "excedente" de trabalhadores migra para trabalhos precários ou simplesmente inúteis, do ponto de vista do bem-estar da sociedade como um todo².

Este é o modo de produção capitalista: um sistema econômico no qual os seres humanos não são senhores das máquinas, mas se veem dominados por meio delas. No capitalismo, como no filme "Matrix", os seres humanos se tornaram meras peças descartáveis das máquinas. E as máquinas, no impulso de tornar alguns poucos seres humanos cada vez mais ricos, parecem ter ganhado vida própria.

SAIR DA MATRIX

O capital pode dominar todo o processo de reprodução da vida material de bilhões de seres humanos unicamente porque, ao longo das gerações, esses mesmos seres humanos foram apartados dos meios de produção necessários ao seu trabalho, como as máquinas, instalações, terras, insumos etc., produzindo com isso uma verdadeira escravidão assalariada, na qual a esmagadora maioria da humanidade se vê obrigada a vender sua força de trabalho para simplesmente sobreviver, quase não restando tempo livre.

Esse processo de assalariamento da mão de obra e concentração dos meios de produção nas mãos da classe capitalista se deu com base na pilhagem, no genocídio, no roubo legalizado e na exploração desumana, como Marx narrou no célebre capítulo 24 do livro I de "O Capital", sobre "a assim chamada acumulação primitiva do capital".

Diante disso, a questão colocada ao conjunto da classe trabalhadora desde o tenebroso desenvolvimento do capitalismo industrial é uma só: Por que não expropriar os expropriadores? Se a riqueza no capitalismo é socialmente produzida, por que manter a apropriação privada dessa riqueza? Por que a riqueza que é produzida pelo esforço coletivo de toda a sociedade não pode ser apropriada de modo adequado por toda a sociedade? Por que devem existir pessoas excluídas da riqueza socialmente produzida?

E é porque o interesse fundamental da classe trabalhadora e seus setores marginalizados é o interesse fundamental do ponto de vista de TODA a sociedade, pois esse interesse constitui a "sociedade" enquanto tal, que a classe trabalhadora caminha na história ao lado da verdade, podendo emancipar a todos os seres humanos da cruel divisão em "classes".

REFERÊNCIAS
1 https://goo.gl/mmxdBo
2 https://goo.gl/hB5UqF
* Para ler o estudo original com versões em inglês e espanhol: https://goo.gl/Tgiecx
◥◥◥◥◥◥◥◥◥◥◥◥◥◥◥◥◥◥◥◥◥◥◥
POEMA - POLÍTICA ECONÔMICA DA MAIORIA
Para mais informações: www.poema.info


Related articles

Authors

Feeds

RSS / Atom