O que acontece quando a Saúde cai nas mãos invisíveis do mercado?

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É consenso que qualquer empresa, em um sistema capitalista, só é viável se for lucrativa.

De acordo com a ideologia liberal, esta situação é benéfica para toda a sociedade, visto que a busca pelas máximas vantagens individuais confere à sociedade, como um todo, maiores benefícios.

Entretanto, a busca pelo lucro em setores como a saúde pode ser catastrófica, visto que o objetivo não é salvar vidas, mas sim o lucro.

Exemplo disso é a falta de medicamentos mais antigos e baratos no mercado brasileiro, alguns deles sem mercado e sem substitutos, conforme mostra matéria do Jornal "Folha de São Paulo"*.

A matéria aponta que "das 1.748 drogas canceladas entre maio de 2014 e junho de 2017, 63% foram por motivação comercial"¹.

Segundo algumas empresas farmacêuticas (que visam o lucro, e não a saúde das pessoas), a defasagem de preços é decorrente de política governamental. O governo contesta e afirma que os preços dessas drogas têm sido revisados.

TRATAMENTO DE DIVERSOS TIPOS DE CÂNCER PREJUDICADO

No caso de pacientes dependentes de medicamentos de combate ao câncer, a matéria aponta que "há uma grande preocupação com essa situação porque o atraso do tratamento ou sua interrupção pode acelerar o crescimento do tumor e reduzir as chances de cura".

A médica Maria Inez Gadelha, diretora do departamento de atenção especializada do Ministério da Saúde, afirma que pelo menos 30 medicamentos para combater o câncer já foram "descontinuados" desde 2014 ou correm o risco de sê-lo, incluindo medicamentos para tratamentos de tumores de bexiga, pulmão e leucemias.

Gadelha afirma que "muitos desses remédios foram desenvolvidos a partir dos anos 1950, não possuem patente e, por serem baratos, a indústria não tem mais interesse em produzi-los."

PARA O MERCADO, VIDAS NÃO IMPORTAM

Uma paciente relata o sofrimento com a falta de um medicamento específico (Leukeran). O medicamento, que custava R$ 38, desapareceu das farmácias. Após seis meses, Vera de Oliveira conseguiu 4 caixas diretamente com o laboratório e recebeu a doação de mais três. Mas no período em que ficou sem o medicamento, Vera teve reações alérgicas, ganho de peso e insônia, além da necessidade de tomar outros medicamentos para combater esses sintomas.

OS MAIS POBRES "PAGAM" COM A VIDA

De acordo com Angelo Maiolino (presidente da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular), pacientes com câncer sofrem com "dificuldade de acesso a drogas antigas e baratas, por falta de interesse das farmacêuticas, e também às novas, por causa do alto custo".

Ou seja: se o paciente não tem condições de adquirir a nova medicação, pode ver suas chances de sobrevivência diminuírem drasticamente por não terem condições de comprar o medicamento novo.

Maiolino afirma: "Por mais antiético, absurdo e quase criminoso que seja imaginar a falta de um medicamento imprescindível, a indústria não é obrigada a produzi-lo. Nem aqui e nem em outros países".

Para a POEMA, saúde não é mercadoria. Defendemos um sistema público de saúde, de qualidade, para todas as pessoas e financiado com impostos progressivos, isto é, quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos. Desejamos este sistema de saúde inclusive para os liberais que pensam que tudo, até a saúde, deva ser mercantilizado e dar lucro para poucos ao invés de bem-estar para muitos.

* http://bit.ly/2ui0WGL