Há 150 anos da publicação de "O Capital", de Karl Marx, ONU solta relatório que mostra a atualidade de teses centrais da obra

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Enquanto comemorávamos a longevidade da públicação de "O Capital", a Organização das Nações Unidas publicou relatório reconhecendo o seguinte: se deixamos correr solto o livre mercado, monopólios se formam e isso suprime as regras do livre mercado¹.

A tese da tendência ao monopólio é uma constante na obra econômica de Marx desde a juventude ("Manuscritos Econômico-Filosóficos" ou "Manuscritos de Paris", de 1844). Mas é no primeiro volume de sua obra máxima, O Capital (1867), que esta tese é trabalhada de modo definitivo.

A tese é simples e verdadeira: se seguirmos à risca as regras do livre mercado, a acumulação capitalista por si só nos leva à formação de monopólios. Dada a competição, os grandes vão ficando maiores e os menores vão sendo engolidos pelos grandes, em um processo de crises, concentração e centralização de capitais. Assim, os grandes vão convertendo seu poder financeiro em cada vez mais poder financeiro, em cada vez mais propriedades, em cada vez mais poder político... E quanto mais poder acumulam, mais poder querem e podem acumular, porque o capital é esse impulso sem medida, em um processo no qual a concorrência naturalmente cessa quando surgem os vencedores do sistema, podendo determinar condições restritivas aos concorrentes, como preços de monopólio, uso do Estado etc.

Como as grandes empresas capitalistas acumulam quantias colossais de capital-dinheiro e propriedades diversas, é natural que decorra daí um processo de acumulação improdutiva conhecido como "rentismo", no qual o direito de propriedade de ativos financeiros ou não-financeiros vira dinheiro e mais propriedades e o dinheiro vira mais dinheiro sem qualquer mediação na esfera da produção de bens e serviços. Neste processo o dinheiro e o direito de propriedade sugam, por assim dizer, mais dinheiro e mais propriedades já constituídos, não criando valor novo na economia. Exemplos de rentismo são o proprietário de terra que cobra aluguel e o detentor de títulos públicos que cobra juros.

Em um período recente, o capitalismo voltou a uma fase de desregulamentação e de "livre" mercado correndo solto. Da década de 1980 pra cá vivemos o capitalismo em sua fase neoliberal. E os dados são cristalinos:

"Por meio de uma análise de dados de companhias não financeiras em 56 países desenvolvidos e em desenvolvimento, o relatório mostrou que os ganhadores levam (quase) tudo. Entre 1995 e 2015, os lucros 'extraordinários' (lucros que não decorrem das atividades centrais da empresa) passaram de 4% para 23% do lucro total do conjunto das empresas, e de 19% para 40% nas 100 maiores empresas. Em 1995, a capitalização de mercado das 100 maiores empresas globais era 31 vezes maior que a das 2 mil empresas no piso da pirâmide; 20 anos depois, passou a ser 7 mil vezes maior"¹.

O relatório da ONU também corrobora a descrição geral que Marx faz do processo de acumulação. Grosso modo, quanto mais os capitalistas buscam lucrar, lucrar e lucrar para vencer a concorrência e para salvar-se da desvalorização, na mesma medida em que se concentra propriedade de meios de produção, dinheiro e ativos de um lado, do outro lado se produz cada vez mais pobreza e um exército de despossuídos prontos para serem explorados ao custo da simples sobrevivência².

"(...) o crescimento do controle dos mercados pelas grandes empresas não tem sido proporcional ao crescimento do emprego por elas oferecido. Medida pela capitalização de mercado, a participação das 100 maiores empresas quadruplicou, mas sua participação no emprego apenas dobrou."¹

Ou seja, o capitalismo sempre chega num ponto em que os grandes querem se conservar grandes, e a economia real (oferta de bens e serviços, geração de empregos etc.) que se dane. Por isso, em algum momento vamos ter que nos livrar do capitalismo se a ideia é salvar a economia real e a sociedade da barbárie.

REFERÊNCIAS

¹ https://goo.gl/2zjqH7
² Sobre isso, leia estes dois textos produzidos por nós: https://goo.gl/hPnsXV e https://goo.gl/dpmr2c