Em defesa da Embraer

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Tem sido veiculada na grande imprensa a intenção do Governo Federal de passar o controle da Embraer à Boeing, atavés da venda de ações¹ para a empresa estadunidense. Apesar de Temer ter negado a possibilidade deste negócio no final do ano passado², o fato é que sua palavra não vale muito. Diante disso, é preciso ficarmos atentos.


Admitindo a possibilidade desse negócio, é importante termos em mente o que está em jogo. E para que a sociedade entenda melhor a situação, o site “A Embraer é Nossa”³ reúne 13 artigos de pesquisadores e ativistas sindicais ligados à Empresa ou às questões que afetam seus trabalhadores.


Um dos artigos⁴ de autoria do economista e professor da Unicamp Marcos José Barbieri Ferreira – descreve o cenário mundial das empresas do setor de aviação, o papel atual da Embraer neste mercado, suas potencialidades e os riscos envolvidos caso a Boeing assuma o controle da estatal brasileira.


Com base em dados da Consultoria Deloitte, Ferreira afirma que a Embraer é o 22º maior conglomerado Aeroespacial e de Defesa (A&D) do mundo, e ocupa a 3ª posição entre as maiores fabricantes de aviões, com “reconhecida competência em todos os mercados que atua: comercial, executivo e militar”.


Diante disso, a possibilidade de aquisição da Embraer pela Boeing vai na contramão do padrão de concorrência da indústria aeronáutica mundial, posto que os países “buscam preservar e reforçar o controle nacional dos seus respectivos conglomerados A&D", segundo Ferreira.


Para o economista, é ainda mais importante que o Brasil mantenha o controle sobre a Embraer sobretudo porque a empresa “responde sozinha por mais de 80% das receitas do conjunto de empresas que compõem o setor aeroespacial brasileiro”, e também porque “o restante da cadeia produtiva da indústria aeronáutica brasileira é muito restrita, formada majoritariamente por fornecedores de segundo e terceiro níveis, altamente dependentes da Embraer”. Ou seja, em caso de perda do controle para a Boeing, haverá a “perda de controle do conjunto da indústria aeronáutica brasileira, seja pela atuação direta dessa empresa, seja pela coordenação que ela exerce sobre a cadeia de suprimentos”. Além disso, a Embraer “foi considerada a empresa que mais investiu em processos de manufatura avançada no Brasil, nestes últimos anos”.


Portanto, uma transferência do controle das atividades de desenvolvimento, produção e comercialização de aeronaves civis (comerciais e executivas) para a estadunidense Boeing poderia significar o completo “desmonte” da empresa brasileira, além de ir na “contramão do processo de consolidação da estrutura produtiva da indústria aeronáutica mundial, que resultou na constituição dos grandes conglomerados A&D, sendo a própria Embraer um dos casos de sucesso desse processo”, afirma Ferreira.


Além do mais, a perda do controle também implicaria na invialidade econômica do “braço militar” da empresa, uma vez que é o segmento civil que fornece a escala produtiva à empresa, respondendo por mais de 80% de suas receitas.


Ferreira conclui o artigo afirmando que transferir o controle da Embraer para uma empresa estrangeira significa “o fim da Embraer como a conhecemos, seria o fim da global player brasileira”, e defende a “construção de alianças estratégicas internacionais que efetivamente preservem a integridade e o controle nacional da empresa”.



Referências
1 No processo de privatização em 1994, o governo ficou com uma ação de classe especial chamada “golden share”. Essa ação foi criada para o governo ter direito a veto em empresas privatizadas. Com isso, qualquer decisão estratégica, como troca de controle acionário e criação ou alteração de projetos militares, precisa, na prática, da aprovação do governo (http://bit.ly/2s7apid).
2 https://glo.bo/2s0SppR
3 https://bit.ly/2sb4NCX
4 https://bit.ly/2Lu0Nq2




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