Quem são os "vagabundos"

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É comum ouvir por aí gente dizendo que são os empresários que produzem a riqueza. É sempre a mesma cantilena: todos os bens e serviços de que a economia dispõe seriam obra de indivíduos empreendedores, que possuiriam ideias, dinheiro e coragem para enfrentar riscos.

Está fora de questão entrar em longa discussão filosófica sobre o que é uma "ideia", sobre a possibilidade de haver propriedade privada de algo fundado na universalidade da razão, fruto do esforço de todos os seres humanos que já estiveram sob o sol e do patrimônio genético de nossa espécie. Cabe apenas dizer que, em geral, "ter uma ideia" depende de condições que transcendem as capacidades e habilidades de um indivíduo isolado.

Mas quanto ao "dinheiro", bem, é preciso dizer que ele não nasce em árvore e sim no berço. No capitalismo amplamente consolidado, apenas muito raramente e de modo muito residual quem tem dinheiro trabalhou duro para obtê-lo. Via de regra, quantias significativas de dinheiro são obtidas ou pela herança, e/ou exploração do trabalho alheio, e/ou roubando, e/ou ganhando na loteria. 

É evidente que um ou outro trabalhador melhor remunerado pode poupar durante muitos anos e chegar a ter uma quantia significativa de dinheiro. No entanto, cabe dizer que os postos de trabalho melhor remunerados quase sempre estão vinculados a exigências educacionais inacessíveis à maioria das pessoas, constituindo assim uma espécie de "herança". 

É claro também que o dinheiro herdado, ou roubado, ou ganho no jogo de azar se originou ele próprio na exploração do trabalho alheio, posto que o dinheiro, em qualquer que seja sua forma histórica concreta, é apenas a representação convencional do valor, cuja origem é simplesmente o trabalho¹. 

É claro também que quem já tem dinheiro pode sempre multiplicá-lo no passe de mágica da acumulação financeira, comprando títulos, apostando com derivativos etc., mas é claro que esse processo apenas concentra poder de dispor sobre uma economia real dada (bens e serviços disponíveis), não criando riqueza nova, já que a fonte da riqueza é o trabalho vivo, que disponibiliza bens e serviços.

Quanto ao "risco", é preciso dizer o que todo empresário sabe: via de regra, foge-se dele como se foge do banho no frio. A acumulação de capital exige aversão ao risco. E, diante de qualquer imprevisto, o ônus da adversidade é jogado, em primeiro lugar, sobre as costas daqueles que vivem do próprio trabalho. 

Vale dizer que o desemprego conjuntural* é em larga medida provocado pela aversão ao risco. Em um contexto de crise, como o nosso, o capitalista olha para o mercado e não vê para quem poderia vender mercadorias e serviços. A primeira coisa que ele faz é demitir pessoal e deixar parte de seus meios de produção ociosos, enquanto esfola os trabalhadores remanescentes. Se tiver dinheiro sobrando, irá fugir do risco e aplicá-lo em títulos de dívida pública, por exemplo, evitando o investimento produtivo e consolidando a taxa de desemprego. 

Assim, no geral, os trabalhadores ficam desocupados por razões que transcendem a simples vontade de trabalhar, mas a ideologia do mercado está sempre de prontidão para taxá-los de "vagabundos". 

Mas afinal, quem são os vagabundos?

Um empresário não possui mil cabeças, não possui dois mil braços, não possui duas mil pernas, muito embora usufrua da recompensa sobre o trabalho de mil homens e mulheres.

É justamente isso o capitalismo: um modo de produção que permite a uma ínfima minoria se livrar da maldição bíblica do trabalho e levar uma vida de rei dos reis. Outras poucas pessoas, que conseguem mais que sobreviver², comportam-se, no geral, como súditas fiéis, sempre dispostas a adorar os ídolos do capital e a cumprir os seus ritos, amaldiçoando os que levantam o véu da aparência das economias de mercado. 

Já a imensa massa trabalhadora tem sempre que tirar o suor da testa não apenas para o próprio pão, mas também para o banquete do patrão. Isso quando a própria dinâmica capitalista não lhe priva o acesso ao trabalho, não lhe restando para comer nem o pão que o diabo amassou. 

O capitalista nada mais é do que aquele que se livra do fardo do trabalho, unicamente porque o joga sobre costas alheias. Tem também o pobre capitalista para quem o fruto do próprio trabalho se multiplica como milagre, mas se subirmos o alçapão da caixa registradora, lá embaixo estará sempre a exploração dos demais. 

Moral da história: 99% trabalha, mas aquele 1% é vagabundo. 


REFERÊNCIAS

¹ https://goo.gl/hPnsXV
² https://goo.gl/TrkxvW

*Desemprego ligado aos ciclos e flutuações da acumulação capitalista e à redução no nível de utilização da capacidade instalada. Isto é diferente do desemprego estrutural, gerado pela extinção de postos de trabalho, como quando há implemento de tecnologia na produção: https://goo.gl/dpmr2c