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Visualizando artigos de Setembro, 2017

O Brasil tem dinheiro sim!!! E 1 trilhão de reais!

Desde o começo de 2015 os brasileiros escutam a mesma ladainha nos meios de comunicação capitalistas: "o país está quebrado", "o país não tem dinheiro", "precisamos cortar gastos, porque existe um rombo nas contas públicas" etc., etc.

Tudo se passa como se a "herança maldita" de "governos que gastavam demais" tivesse colocado o país no buraco e agora "seriam necessários sacrifícios de todos os brasileiros".

A verdade é que a única "herança maldita" é a própria política econômica adotada desde o começo de 2015¹, que fez o Brasil cavar o fundo do poço da recessão, produzindo deliberadamente queda da atividade econômica e desemprego, derrubando a arrecadação tributária e, consequentemente, aumentando o "déficit" das contas públicas. Não apenas o déficit relativo às receitas correntes (grosso modo, "déficit primário"), mas o déficit como um todo (ou dito "nominal"), pois essa mesma política econômica tem apenas servido para enriquecer ainda mais os muito ricos, entregando-lhes rios de títulos públicos que rendem uma taxa de juros injustificavelmente alta².

A CONTA ÚNICA DO TESOURO NACIONAL

A Secretaria do Tesouro Nacional é um órgão subordinado ao Ministério da Fazenda que tem como missão, grosso modo, fazer a gestão dos orçamentos federais e a operacionalização do gasto público da União. Para isso, o Tesouro possui uma conta no Banco Central (como você deve possuir uma conta corrente em um banco comercial qualquer), a chamada Conta Única do Tesouro, que é operada, via de regra, pelo Banco do Brasil.

Ocorre que essa conta possui um saldo parado gigantesco, formado por: acúmulo de "superávits primários"*, recursos da renegociação das dívidas de Estados e Municípios, remuneração da própria Conta Única e lucro do Banco Central³. Esse saldo é destinado privilegiadamente aos credores da dívida pública brasileira, funcionando como um "colchão de liquidez".

A Conta Única do Tesouro dispõe de um saldo positivo que gira em torno de R$ 1 trilhão4! Vamos repetir: o Brasil tem R$ 1 trilhão em sua "conta corrente"! Isso é bem mais que o dobro do total de tudo que foi pago em juros no ano de 20165, pagamento de juros que poderia ter sido bem menor caso praticássemos taxas de juros civilizadas e comparáveis às praticadas no resto do mundo. Quem não gostaria de "estar quebrado" com R$ 1 trilhão na conta?

"Colchão de liquidez" significa o seguinte: o Estado brasileiro deixa toda essa grana parada para caso os credores da dívida pública queiram resgatar os títulos ou receber os juros em moeda para necessidades transacionais etc. Ocorre que o grosso dos credores (dos GRANDES CREDORES**) simplesmente não resgata os títulos! Porque dinheiro não rende juros, ainda mais uma taxa básica de juros reais (isto é, acima da inflação) que se encontra em cerca de 5% ao ano!... E o governo oferta títulos que rendem ainda mais que a taxa básica... Daí os grandes credores usam os juros para comprar mais títulos e simplesmente trocam os títulos do principal, fazendo da dívida pública brasileira uma bola de neve gigantescamente rentável, que exige cada vez mais sacrifícios do povo e que esmaga os seus anseios por uma vida melhor.

O endividamento público em si mesmo não seria ruim se houvesse contrapartida em investimentos, por exemplo. O problema é que a nossa capacidade de endividamento público, que seria relevante para qualquer projeto de desenvolvimento econômico, está minada. A dívida cresce cada vez mais seguindo uma lógica estritamente financeira. 

Pelo amor do que quer que vocês considerem sagrado, entendam: todos os "cortes" e o "teto de gastos"6 foram empurrados goela abaixo da gente para supostamente "conter o aumento da dívida pública" que supostamente "cresce de maneira descontrolada porque os gastos sociais não cabem na Constituição". Mas a dívida pública cresce independentemente dos gastos sociais e dos demais investimentos!

Agora reflitam conosco: Se o saldo da Conta Única do Tesouro é mais que o dobro do ABSURDO VOLUME DE JUROS pagos anualmente, por que não adequá-lo às reais necessidades da própria dívida pública e às necessidades de investimentos públicos do país? Por que esse excesso de privilégio para uma dívida que quase todo o povo não sabe o que é e por que nós a temos? Por que não gastar parte desse saldo em projetos de infraestrutura, por exemplo, que nos ajudariam a sair da recessão e a dar maior vigor para a economia brasileira ao longo do tempo, o que inclusive é útil, se a ideia é manter a trajetória da dívida pública "sustentável"? Ou ainda, por que matar a ciência brasileira7, se temos tanta grana parada? Por que sucatear as Universidades Federais, se temos tanta grana à disposição? Nós precisamos mesmo de tanto desemprego, provocado em larga medida pelos juros altos e pelo corte de gastos públicos8?

Fora a necessidade de baixar a taxa de juros (SELiC) para níveis civilizados, o que exigiria ainda menores "disponibilidades" para a "segurança" dos credores...

Fora que a dívida pública precisa ser reconfigurada de cabo a rabo, não só em relação ao seu custo em juros, mas também em relação à sua composição e perfil (quais títulos e com quais prazos de vencimento)... O governo adora comparar a finança pública com a finança de uma família, o que, retórica à parte, é um total non sense macroeconômico... Mas, de todo caso, diante de uma dívida sufocante, o que uma família faz em primeiro lugar, ela deixa de comer, morar, tira os filhos da escola ou ela busca renegociar a dívida? Talvez o governo devesse ser mais coerente com suas próprias metáforas9... 

Fora que existem questionamentos em relação ao próprio estoque dessa dívida, o que seria esclarecido para todo o povo por meio de uma auditoria... É comum ouvir da boca anônima do povo que não temos dinheiro pra saúde e educação por causa da corrupção... Mas e se o povo fosse um pouquinho melhor informado sobre como funciona a finança pública? E se o povo soubesse um pouco mais sobre a política monetária, sobre os juros? Talvez assim ele entendesse a necessidade de cortar as asinhas da "autonomia" do Banco Central e determinasse o seu devido controle democrático... Quem tem medo da investigação e da verdade? Quem tem medo da auditoria? Seriam os mesmos que nunca falaram pra você que o Brasil tem 1 trilhão de reais guardados no colchão?

REFERÊNCIAS
1 https://goo.gl/1jfalv
2 https://goo.gl/xZWr1I
3 Acórdão TCU 315/2009, pg. 05. 
4 Esse saldo pode ser estimado a partir do Relatório do Resultado do Tesouro Nacional, ver linha "Disponibilidades Internas" da tabela 7.1 da pg. 42 (https://goo.gl/m6gpuY) e nas Demonstrações Financeiras do Banco Central, ver "Balanço Patrimonial Sintético", primeira tabela do link, rubrica "Passivo em moeda local/Obrigações com o Governo Federal" (https://goo.gl/TmXoGW)
5 https://goo.gl/uNuvH1
6 https://goo.gl/TFhCGw
7 https://goo.gl/U1FR57
8 https://goo.gl/Wya1Za
9 https://goo.gl/21qXm3

* Superávit primário é, grosso modo, a economia que o governo faz das receitas correntes face aos seus gastos "primários" (isto é, com saúde, educação, investimentos, funcionalismo etc., etc.), excluindo-se dessa conta os gastos financeiros, ou seja, com dívida pública (juros, refinanciamento, amortização etc.).
**Não pense que estamos falando de você, sujeitinho de classe média que possui umas "aplicaçõeszinhas" no Tesouro Direto, o que, aliás, equivale a pouco mais de ridículos 1,3% do estoque total da dívida: https://goo.gl/uoOEBU

Sobre correlações e causalidades

Todos já devem ter ouvido falar que no passado muitas civilizações praticavam sacrifícios (muitos deles humanos) posteriores a fenômenos catastróficos (terremotos, enchentes, epidemias) como uma espécie de oferenda aos deuses que, tomados pela ira, castigavam os povos com tais catástrofes.

Pode-se tomar este exemplo como uma forma rudimentar de correlação sem causalidade, ou em outras palavras, uma correlação espúria: se há desastres sobre o povo "x", é porque algo que foi feito por alguém do povo "x" ou pelo povo "x" como um todo enfureceu os deuses.

Isto é até natural, diante da ignorância de tais povos acerca do mecanismo de funcionamento destes fenômenos naturais, que só vieram a ser esclarecidos séculos depois, a partir da sistematização do conhecimento científico.

Entretanto, é comum que correlações sem causalidade sejam utilizadas para reafirmar e defender sistemas de crenças, com ares de "ciência", já que numa primeira análise, se há uma correlação entre duas variáveis, é possível que haja um nexo causal entre elas.

Mas será que é simples assim? Basta comparar duas variáveis, estabelecer a correlação estatística e assim se prova a causalidade entre elas?

Vejamos então alguns exemplos absurdos¹:

- Correlação entre gastos com ciência/tecnologia e suicídios por enforcamento, estrangulamento e sufocamento nos Estados Unidos entre 1999 e 2009 = 0.99.
- Correlação entre consumo per capita de queijo e mortes causadas por amputamento nos Estados Unidos entre 2000 e 2009 = -0.97.

Alguém é capaz de explicar o nexo causal entre estes pares de variáveis? Será que os gastos em Ciência e Tecnologia (C&T) tem alguma relação com suicídios por enforcamento, estrangulamento e sufocamento? Em caso afirmativo, deveríamos parar os investimentos em C&T para poupar vidas humanas! Ou devemos enriquecer nossa dieta com queijo para evitar mortes causadas por amputamento!

Estes são apenas dois exemplos de correlações espúrias, posto que não há razões para crer que haja um nexo causal entre os pares de variáveis citados.

Dito isto, um artigo do ILISP - Instituto Liberal de São Paulo "bombou" as redes sociais recentemente, pois afirmava que após a onda de desestatização e redução do estado, SP se torna o estado mais seguro do Brasil².

Segundo o artigo, o sucesso de SP se explica pelo Programa Estadual de Desestatizações, através do qual foram privatizadas rodovias, a SABESP, a CPFL, o Banco Nossa Caixa, etc, fazendo com que o Estado arrecadasse R$ 32,9 bilhões com tais privatizações em valores da época.

Assim, "com menos responsabilidade na mão e mais recurso em caixa", foi possível investir mais em Segurança Pública e Educação, reduzindo a taxa de assassinatos no estado em 44%, ao passo que "20 estados brasileiros tiveram crescimento da violência".

Parece convincente, não? Um estado que reduziu seu "tamanho" e passou, portanto, a investir mais em segurança e educação e assim se tornou o estado mais seguro do Brasil. No entanto, a despeito de ser uma "meia verdade"³ muitas perguntas ficam no ar, sendo que destacaremos as duas principais, ao nosso ver.

Em primeiro lugar, a onda de desestatização ocorreu em praticamente todos os estados da federação, no contexto da renegociação das dívidas estaduais com a união4. Em troca da renegociação, o Governo Federal impôs uma agenda de privatizações e de redução de gastos com pessoal (arrocho salarial, programas de demissão voluntária etc), aceita pelos estados que se encontravam com a "faca no pescoço".

O próprio Estado de SP, que renegociou sua dívida com a união em troca do PED e outras medidas de caráter neoliberal (redução do "tamanho" do Estado), passou a dever R$ 46,2 bilhões (em valores da época) a serem pagos em 30 anos. No entanto, 15 anos depois, a dívida já passava dos R$ 190 bilhões, pois apesar de todos os pagamentos mensais realizados no período, o valor necessário para amortizar o empréstimo quase sempre foi superior ao valor pago pelo Estado, em função das condições draconianas do refinanciamento realizado5.

A abundância de recursos decorrentes da redução do tamanho do Estado é, na verdade, uma mentira. Empresas potencialmente lucrativas, como a SABESP e a Nossa Caixa, foram entregues ao setor privado, que aufere grandes lucros com tais empresas e infraestruturas, ao passo que SP ficou com uma dívida que sequer consegue pagar. Tal fato é comprovado pela recente renegociação das dívidas dos Estados e Municípios com a União, já que a capacidade de pagamento dos entes federados estava muito aquém da capacidade necessária para quitar os contratos no prazo estabelecido6.

Em segundo lugar, há que se considerar as fortes suspeitas de um "pacto informal" entre Governo do Estado de SP e o Primeiro Comando da Capital, uma organização criminosa influente e poderosa que controla a quase totalidade dos presídios do estado, assim como a distribuição e venda de drogas ilícitas em SP. Tal acordo, além de ter permitido a "pacificação" dos presídios do estado, também provocou a queda drástica de homicídios decorrentes de disputas territoriais entre facções de traficantes rivais, ao contrário do que ocorre no Rio de Janeiro, por exemplo, onde é latente a disputa entre Comando Vermelho e PCC atualmente7.

A lista de problemas entre essa correlação espúria publicada no portal do ILISP pode se alongar bastante. No entanto, não é o objetivo do presente texto desenvolver uma lista exaustiva sobre as contradições do artigo em questão.

Obviamente em nenhum momento dissemos que investir em segurança pública não tem o poder de reduzir a violência. No entanto, para comprovações deste tipo, são necessárias análises mais aprofundadas que levem em conta a complexidade da realidade, para além da tentação de correlações toscas que se acomodam confortavelmente em nossos sistemas de crenças.

REFERÊNCIAS
1 Exemplos retirados de: http://bit.ly/2eSnZPS
2 http://www.ilisp.org/noticias/apos-desestatizar-e-diminuir-o-estado-sao-paulo-se-torna-o-estado-mais-seguro-do-brasil/
3 "Secretário erra ao dizer que SP tem melhores indicadores criminais do país", por Pública - Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo:http://bit.ly/2vD02Xa
4 Uma boa análise do processo de renegociação das dívidas estaduais é encontrada no livro "Dívida dos Estados", da Auditoria Cidadã da Dívida:http://bit.ly/2iRIIYF
5 Para um breve histórico da Dívida Paulista, recomendamos o link a seguir: http://bit.ly/2vVZoj4
6 http://bit.ly/2gD5tin
7 Para aprofundamento no tema, sugerimos a leitura da Tese de Doutorado de Camila Caldeira Nunes Dias: http://bit.ly/2gvkeQx, ou em entrevista da mesma pesquisadora disponível no youtube:http://bit.ly/2gvcga6

Grupo de economistas lança manifesto em defesa de outra política econômica

O debate econômico no Brasil encontra-se profundamente bloqueado e insistentemente usado como chantagem contra o povo. Diariamente governo e imprensa exigem o sacrifício popular dizendo que não há saídas sem retrocessos, como a proposta de “reforma” da previdência, que na prática acaba com a aposentadoria. Por isso, as propostas que visam solucionar a crise através da distribuição de riqueza precisam voltar à tona com urgência e de maneira contundente.

É dentro desse “espírito” que um conjunto de economistas e profissionais da área econômica apresentam um manifesto para aprofundar o diálogo social sobre a economia que deve servir ao povo. A iniciativa visa promover uma inserção mais organizada no debate público e desmontar as narrativas hegemônicas da economia que oferecem como única saída o sacrifício do povo trabalhador.

Apresentamos o manifesto “Economistas pelo Brasil”, que condensa, em linhas gerais, parte do que nosso coletivo define como uma Política Econômica da Maioria. Trata-se de um documento assinado por economistas e profissionais da área econômica, apoiado pela POEMA e aberto a novas adesões. Leia abaixo o manifesto na íntegra. Para assinar, clique aqui: https://goo.gl/DcjsWA

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ECONOMISTAS PELO BRASIL!

A riqueza brasileira

Somos mais de duzentos milhões de brasileiros e brasileiras de diversas origens, com uma diversificada produção cultural e uma forte resistência. A gente brasileira é nossa maior riqueza. Mas não é a única.

Nosso país não é pobre! Nos mais de 8 milhões de quilômetros quadrados de território nacional temos gigantescas riquezas naturais. Temos imensa capacidade hídrica (navegável e potável) e a maior taxa de incidência de energia solar do mundo. Estas duas riquezas combinadas são as principais fontes da vida, de energia limpa e renovável, e de produção de alimentos.

Nosso território nos legou também importantes jazidas minerais como ferro, bauxita, manganês e, contra todas as projeções antinacionais, o petróleo. Temos ainda o quase monopólio do nióbio, mineral essencial para a produção de produtos microeletrônicos e aços especiais.

O Brasil não é pobre! Sempre foi produtivo. Fomos uma das colônias que mais promoveu a riqueza das metrópoles, mesmo antes da descoberta do ouro, do ciclo do café e da industrialização. Hoje, produzimos a nona maior riqueza do mundo. Somos ainda, apesar de todos os recuos, a nona maior indústria mundial.

Mais do que possível, é necessário orientar coletivamente essas potencialidades para combater a crise atual, fazer as transformações estruturais necessárias, promover e satisfazer as necessidades de nossa comunidade nacional.

A economia contra o povo

O grande potencial econômico do país não tem sido usado em favor do povo. Ao contrário, todas essas potencialidades são ocultadas por um discurso de crise que nos apresenta como um país pobre cuja saída única é a manutenção e o aprofundamento do sacrifício popular.

O discurso econômico tornou-se, nos últimos anos, a principal arma política da minoria rica e poderosa contra o povo. Em nome da economia, e de uma falsa saída para a crise, estão tirando nossos direitos, corroendo o orçamento público, entregando instrumentos de soberania nacional e de desenvolvimento econômico.

A solução dos problemas da vida do povo brasileiro não pode ser secundada, não pode ser um desdobramento da solução dos “problemas econômicos”. As questões econômicas não estão separadas das questões sociais e muito menos políticas. O discurso que as separa está interessado em se apropriar da economia para manter e aprofundar os privilégios de uma minoria exploradora, gananciosa e mesquinha que controla nosso país há séculos.

Para isso contratam um sem número de assessores, bacharéis e PHDs que criam um gigantesco arcabouço ideológico, aparentemente técnico, isento e neutro a fim de ocultar as nossas imensas riquezas e a evidente razão política de nossa penúria. Esses “especialistas” transformam a ciência econômica em assunto somente para iniciados, pois a “tecnificação” do discurso é um método eficaz para alienar o povo do debate. Criado o repertório ideológico que conduz o povo à apatia e à não reação, repetem-no diariamente através do monopólio dos meios de comunicação. Para eles, nós somos o problema. Nossa resistência e luta prejudica seus lucros.

Frente a esse discurso, que nos coloca como problema, oferecemo-nos como solução!

Por uma economia a serviço do povo

Solucionar os problemas sociais é o objetivo de qualquer economia democrática. A produção de riqueza não é um fim em si, mas um meio para atingir o bem-estar social e a felicidade. No âmbito de uma nação isso significa orientar a economia de acordo com as necessidades e os interesses das maiorias. A economia deve estar a serviço de seu povo e não o povo a serviço da economia.

Mas isso só ocorrerá na medida em que povo retornar à cena política e voltar a reivindicar o poder. Não existe uma única solução para as equações econômicas atuais. Existem várias! As medidas propostas pelo governo atual se destinam a resolver o problema do andar de cima, dos ricos que tomaram de assalto o poder nacional. Está claro que os problemas econômicos atuais são de natureza política. Falta dinheiro para nós, mas sobra para os grandes monopólios e para as trapaças palacianas. O problema econômico é claramente um problema da política, um problema de poder, portanto. Os problemas econômicos só serão resolvidos em favor das maiorias quando estas controlarem o poder político. Para contribuir nesse processo é que lançamos esse manifesto.

É preciso mostrar a todos e a todas que não cabem mais ilusões. A saída da crise não reside nas fórmulas fracassadas da austeridade fiscal, que apenas leva à recessão e a ampliação ainda maior do desemprego e da pobreza. A saída da crise passa, entre outros, por profundas reformas que beneficiarão o povo brasileiro e para isso será necessário ampliar a luta social. Por uma nova política econômica baseada na ampliação dos gastos em infraestrutura e serviços sociais básicos, buscando o aumento da demanda, do investimento, do emprego e dos salários. O que cabe agora, além de demonstrarmos nossa indignação e revolta, é contribuir decisivamente para que as pessoas tenham consciência de que é possível uma vida melhor e percebam que as mudanças que necessitamos serão fruto de amplas lutas sociais, construindo uma saída para a crise.

O momento exige um programa econômico de cunho nacional e popular, que sirva aos interesses da maioria da sociedade brasileira. Que coloque o Brasil como um vetor de integração econômica, política, social e cultural na América Latina, baseado na solidariedade, no cooperativismo e na sustentabilidade. O Estado, controlado pela sociedade, mais do que assumir um papel de indutor do desenvolvimento sustentado, do bem viver e da justiça social, deve incentivar as diversas iniciativas populares que resistem, a despeito da dominância econômica dos grandes monopólios e conglomerados.

Para isso, é preciso uma ampla aliança dos sindicatos e centrais sindicais, dos servidores públicos, artistas e coletivos de cultura, Universidades, Movimento Negro, Feminista, Indígena, LGBT, estudantil, das periferias, de parlamentares democráticos e de setores empresariais que se associem ao desenvolvimento e justiça social do país.

Precisamos elaborar um projeto de soberania e autonomia que enfrente a condição de dependência e de subdesenvolvimento do Brasil, partindo de um amplo compromisso que fortaleça, entre outros, a saúde e a educação pública, que promova a paz no lugar da guerra do estado contra seu povo, que promova a soberania alimentar, valorize a habitação popular e o transporte público e, de um modo geral, eleve a autoestima e as condições econômicas, sociais, culturais e espirituais do povo brasileiro, desmercantilizando as relações sociais de maneira progressiva.

Cremos que é necessário criar um amplo debate sobre os rumos de nossa economia, dialogando nas periferias, nos bairros, nas igrejas, aprofundando a consciência sobre a economia nacional e forjando no seio do povo um programa econômico viável que aponte saídas imediatas para a crise brasileira. Propomos aos economistas comprometidos com os interesses nacionais e populares a se lançarem nesse processo, a confiar no diálogo e no aprendizado junto ao povo para construirmos em conjunto uma saída para a crise.

Elencamos abaixo algumas propostas no intuito de estimular o debate desde já e não como fórmula pronta e acabada que deverá ser seguida por todos. Nosso único fundamento inegociável é combater a política econômica que explora e empobrece o povo e criar um programa econômico que esteja a favor da maioria da população brasileira. Para isso elencamos 11 objetivos e suas fontes de financiamento para uma nova economia de combate à crise social e de avanço nas reformas estruturais:

1. Garantir o emprego e recuperação dos salários.

2. Promover a distribuição da renda e da riqueza, erradicar a miséria e a pobreza.

3. Educação pública, de qualidade, em todos os níveis, para toda a população.

4. Saúde pública de qualidade para toda a população.

5. Democratizar a justiça, pela Paz social

6. Alimentos saudáveis para toda comunidade.

7. Moradia e transporte.

8. Ciência e tecnologia.

9. Promover a Integração nacional e infra-estrutura.

10. Fazer a Reforma Agrária e reforma urbana

11. Soberania nacional e superação da dependência externa.

Trata-se de objetivos factíveis. Para alcançá-los, como pressuposto, devemos revogar a emenda constitucional 95 que impôs um teto de gastos por 20 anos para despesas primárias, o desmonte dos direitos trabalhistas e impedir a aprovação do desmonte da Previdência. Devemos também barrar as privatizações que abrem mão de ativos públicos estratégicos, bem como devemos impedir a entrega da reserva amazônica.

Devemos contar com os seguintes instrumentos de financiamento e execução:

1. Reforma Tributária que cobre mais de quem tem mais e menos de quem tem menos.

2. Cobrança efetiva da Dívida Ativa da União.

3. Combater a sonegação de impostos.

4. Redução da taxa básica de juros (SELiC).

5. Auditoria da dívida e recomposição da capacidade de endividamento público, de modo que ele sirva ao investimento produtivo e não ao parasitismo financeiro.

6. Venda de parcela das reservas internacionais.

7. Readequação do saldo da Conta Única do Tesouro.

8. Declaração de nulidade da dívida dos Estados e Municípios e revisão do pacto federativo.

9. Fortalecimento dos Bancos Públicos.

10. Controle democrático sobre o Banco Central.

11. Avançar no combate à corrupção.

12. Controle de capitais e do câmbio.

13. Controle nacional de setores estratégicos: energia, minério, petróleo, comunicação, água e química.

Essa é nossa proposta inicial para uma discussão democrática e republicana. São soluções factíveis para iniciar - aqui e a agora - a saída popular para a crise e plantar as sementes de uma nação socialmente justa e politicamente soberana. O detalhamento dessas propostas serão desenvolvidos no curso do debate e podem ser acessados no portal www.economistaspelobrasil.org.br

Alisson Oliveira de Souza Carvalho, economista e mestrando IE UNICAMP
Arland Costa, economista e mestrando em Sociologia Política - UFSC
Camilla dos Santos Nogueira, economista e doutoranda PPGPS- UFES
Coletivo Política Econômica da Maioria (POEMA)
Daniele Knihs, bacharel em economia, mestre em geografia - UFSC
Diógenes Moura Breda, economista e doutorando IE UNICAMP
Evaldo Gomes, economista e doutorando IE UNICAMP
Fernanda Cardoso, economista e professora da UFABC
Gerson Correa Leite, economista e empresário
Guilherme Lopes, economista e mestrando IE UNICAMP
Guilherme Schwochow Fissmer - economista UFSC
Hugo Rezende Tavares, economista e mestrando em Economia Política PUC/SP
Jônatas Nery, bacharel em economia-Ufes e mestrando em Política Social - Ufes
Karina Fernandes, economista e mestra em Integração da América Latina USP
Marianna Braghini Deus Deus, socióloga pela Escola de Sociologia e Política
Mari Lucia Zonta, analista tributária da Receita Federal do Brasil
Odilon Guedes, economista e Professor da FAEC
Paris Yeros, Professor de Economia da UFABC e editor da revista Internacional Agrarian South
Pietro Caldeirini Aruto, economista e doutorando IE UNICAMP
Rafael Albuquerque Poddixi, bacharel em economia - UFSC
Rayssa Deps Boleli, economista e mestranda IE UNICAMP
Sammer Siman, economista e mestre em Política Social (UFES)
Tais Cangussu, Doutoranda no Programa de Pós Graduação de Serviço Social UFSC
Theotonio dos Santos, economista e Presidente da Rede e Cátedra UNESCO sobre Economia Global e Desenvolvimento Sustentável - REGGEN 
Venâncio de Oliveira, economista e doutorando em Economia Internacional pela UNAM
Vitor Hugo Tonin, economista e doutorando IE UNICAMP
Zacarias Gama, Professor da Faculdade de Educação, UERJ

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