Artigos

Visualizando artigos de Julho, 2017

O que acontece quando a Saúde cai nas mãos invisíveis do mercado?

É consenso que qualquer empresa, em um sistema capitalista, só é viável se for lucrativa.

De acordo com a ideologia liberal, esta situação é benéfica para toda a sociedade, visto que a busca pelas máximas vantagens individuais confere à sociedade, como um todo, maiores benefícios.

Entretanto, a busca pelo lucro em setores como a saúde pode ser catastrófica, visto que o objetivo não é salvar vidas, mas sim o lucro.

Exemplo disso é a falta de medicamentos mais antigos e baratos no mercado brasileiro, alguns deles sem mercado e sem substitutos, conforme mostra matéria do Jornal "Folha de São Paulo"*.

A matéria aponta que "das 1.748 drogas canceladas entre maio de 2014 e junho de 2017, 63% foram por motivação comercial"¹.

Segundo algumas empresas farmacêuticas (que visam o lucro, e não a saúde das pessoas), a defasagem de preços é decorrente de política governamental. O governo contesta e afirma que os preços dessas drogas têm sido revisados.

TRATAMENTO DE DIVERSOS TIPOS DE CÂNCER PREJUDICADO

No caso de pacientes dependentes de medicamentos de combate ao câncer, a matéria aponta que "há uma grande preocupação com essa situação porque o atraso do tratamento ou sua interrupção pode acelerar o crescimento do tumor e reduzir as chances de cura".

A médica Maria Inez Gadelha, diretora do departamento de atenção especializada do Ministério da Saúde, afirma que pelo menos 30 medicamentos para combater o câncer já foram "descontinuados" desde 2014 ou correm o risco de sê-lo, incluindo medicamentos para tratamentos de tumores de bexiga, pulmão e leucemias.

Gadelha afirma que "muitos desses remédios foram desenvolvidos a partir dos anos 1950, não possuem patente e, por serem baratos, a indústria não tem mais interesse em produzi-los."

PARA O MERCADO, VIDAS NÃO IMPORTAM

Uma paciente relata o sofrimento com a falta de um medicamento específico (Leukeran). O medicamento, que custava R$ 38, desapareceu das farmácias. Após seis meses, Vera de Oliveira conseguiu 4 caixas diretamente com o laboratório e recebeu a doação de mais três. Mas no período em que ficou sem o medicamento, Vera teve reações alérgicas, ganho de peso e insônia, além da necessidade de tomar outros medicamentos para combater esses sintomas.

OS MAIS POBRES "PAGAM" COM A VIDA

De acordo com Angelo Maiolino (presidente da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular), pacientes com câncer sofrem com "dificuldade de acesso a drogas antigas e baratas, por falta de interesse das farmacêuticas, e também às novas, por causa do alto custo".

Ou seja: se o paciente não tem condições de adquirir a nova medicação, pode ver suas chances de sobrevivência diminuírem drasticamente por não terem condições de comprar o medicamento novo.

Maiolino afirma: "Por mais antiético, absurdo e quase criminoso que seja imaginar a falta de um medicamento imprescindível, a indústria não é obrigada a produzi-lo. Nem aqui e nem em outros países".

Para a POEMA, saúde não é mercadoria. Defendemos um sistema público de saúde, de qualidade, para todas as pessoas e financiado com impostos progressivos, isto é, quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos. Desejamos este sistema de saúde inclusive para os liberais que pensam que tudo, até a saúde, deva ser mercantilizado e dar lucro para poucos ao invés de bem-estar para muitos.

* http://bit.ly/2ui0WGL

Quem são os "vagabundos"

É comum ouvir por aí gente dizendo que são os empresários que produzem a riqueza. É sempre a mesma cantilena: todos os bens e serviços de que a economia dispõe seriam obra de indivíduos empreendedores, que possuiriam ideias, dinheiro e coragem para enfrentar riscos.

Está fora de questão entrar em longa discussão filosófica sobre o que é uma "ideia", sobre a possibilidade de haver propriedade privada de algo fundado na universalidade da razão, fruto do esforço de todos os seres humanos que já estiveram sob o sol e do patrimônio genético de nossa espécie. Cabe apenas dizer que, em geral, "ter uma ideia" depende de condições que transcendem as capacidades e habilidades de um indivíduo isolado.

Mas quanto ao "dinheiro", bem, é preciso dizer que ele não nasce em árvore e sim no berço. No capitalismo amplamente consolidado, apenas muito raramente e de modo muito residual quem tem dinheiro trabalhou duro para obtê-lo. Via de regra, quantias significativas de dinheiro são obtidas ou pela herança, e/ou exploração do trabalho alheio, e/ou roubando, e/ou ganhando na loteria. 

É evidente que um ou outro trabalhador melhor remunerado pode poupar durante muitos anos e chegar a ter uma quantia significativa de dinheiro. No entanto, cabe dizer que os postos de trabalho melhor remunerados quase sempre estão vinculados a exigências educacionais inacessíveis à maioria das pessoas, constituindo assim uma espécie de "herança". 

É claro também que o dinheiro herdado, ou roubado, ou ganho no jogo de azar se originou ele próprio na exploração do trabalho alheio, posto que o dinheiro, em qualquer que seja sua forma histórica concreta, é apenas a representação convencional do valor, cuja origem é simplesmente o trabalho¹. 

É claro também que quem já tem dinheiro pode sempre multiplicá-lo no passe de mágica da acumulação financeira, comprando títulos, apostando com derivativos etc., mas é claro que esse processo apenas concentra poder de dispor sobre uma economia real dada (bens e serviços disponíveis), não criando riqueza nova, já que a fonte da riqueza é o trabalho vivo, que disponibiliza bens e serviços.

Quanto ao "risco", é preciso dizer o que todo empresário sabe: via de regra, foge-se dele como se foge do banho no frio. A acumulação de capital exige aversão ao risco. E, diante de qualquer imprevisto, o ônus da adversidade é jogado, em primeiro lugar, sobre as costas daqueles que vivem do próprio trabalho. 

Vale dizer que o desemprego conjuntural* é em larga medida provocado pela aversão ao risco. Em um contexto de crise, como o nosso, o capitalista olha para o mercado e não vê para quem poderia vender mercadorias e serviços. A primeira coisa que ele faz é demitir pessoal e deixar parte de seus meios de produção ociosos, enquanto esfola os trabalhadores remanescentes. Se tiver dinheiro sobrando, irá fugir do risco e aplicá-lo em títulos de dívida pública, por exemplo, evitando o investimento produtivo e consolidando a taxa de desemprego. 

Assim, no geral, os trabalhadores ficam desocupados por razões que transcendem a simples vontade de trabalhar, mas a ideologia do mercado está sempre de prontidão para taxá-los de "vagabundos". 

Mas afinal, quem são os vagabundos?

Um empresário não possui mil cabeças, não possui dois mil braços, não possui duas mil pernas, muito embora usufrua da recompensa sobre o trabalho de mil homens e mulheres.

É justamente isso o capitalismo: um modo de produção que permite a uma ínfima minoria se livrar da maldição bíblica do trabalho e levar uma vida de rei dos reis. Outras poucas pessoas, que conseguem mais que sobreviver², comportam-se, no geral, como súditas fiéis, sempre dispostas a adorar os ídolos do capital e a cumprir os seus ritos, amaldiçoando os que levantam o véu da aparência das economias de mercado. 

Já a imensa massa trabalhadora tem sempre que tirar o suor da testa não apenas para o próprio pão, mas também para o banquete do patrão. Isso quando a própria dinâmica capitalista não lhe priva o acesso ao trabalho, não lhe restando para comer nem o pão que o diabo amassou. 

O capitalista nada mais é do que aquele que se livra do fardo do trabalho, unicamente porque o joga sobre costas alheias. Tem também o pobre capitalista para quem o fruto do próprio trabalho se multiplica como milagre, mas se subirmos o alçapão da caixa registradora, lá embaixo estará sempre a exploração dos demais. 

Artigos recentes

Arquivo

2018
2017
2016

Tags

Autores

Feeds

RSS / Atom