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O que acontece quando a Saúde cai nas mãos invisíveis do mercado?

É consenso que qualquer empresa, em um sistema capitalista, só é viável se for lucrativa.

De acordo com a ideologia liberal, esta situação é benéfica para toda a sociedade, visto que a busca pelas máximas vantagens individuais confere à sociedade, como um todo, maiores benefícios.

Entretanto, a busca pelo lucro em setores como a saúde pode ser catastrófica, visto que o objetivo não é salvar vidas, mas sim o lucro.

Exemplo disso é a falta de medicamentos mais antigos e baratos no mercado brasileiro, alguns deles sem mercado e sem substitutos, conforme mostra matéria do Jornal "Folha de São Paulo"*.

A matéria aponta que "das 1.748 drogas canceladas entre maio de 2014 e junho de 2017, 63% foram por motivação comercial"¹.

Segundo algumas empresas farmacêuticas (que visam o lucro, e não a saúde das pessoas), a defasagem de preços é decorrente de política governamental. O governo contesta e afirma que os preços dessas drogas têm sido revisados.

TRATAMENTO DE DIVERSOS TIPOS DE CÂNCER PREJUDICADO

No caso de pacientes dependentes de medicamentos de combate ao câncer, a matéria aponta que "há uma grande preocupação com essa situação porque o atraso do tratamento ou sua interrupção pode acelerar o crescimento do tumor e reduzir as chances de cura".

A médica Maria Inez Gadelha, diretora do departamento de atenção especializada do Ministério da Saúde, afirma que pelo menos 30 medicamentos para combater o câncer já foram "descontinuados" desde 2014 ou correm o risco de sê-lo, incluindo medicamentos para tratamentos de tumores de bexiga, pulmão e leucemias.

Gadelha afirma que "muitos desses remédios foram desenvolvidos a partir dos anos 1950, não possuem patente e, por serem baratos, a indústria não tem mais interesse em produzi-los."

PARA O MERCADO, VIDAS NÃO IMPORTAM

Uma paciente relata o sofrimento com a falta de um medicamento específico (Leukeran). O medicamento, que custava R$ 38, desapareceu das farmácias. Após seis meses, Vera de Oliveira conseguiu 4 caixas diretamente com o laboratório e recebeu a doação de mais três. Mas no período em que ficou sem o medicamento, Vera teve reações alérgicas, ganho de peso e insônia, além da necessidade de tomar outros medicamentos para combater esses sintomas.

OS MAIS POBRES "PAGAM" COM A VIDA

De acordo com Angelo Maiolino (presidente da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular), pacientes com câncer sofrem com "dificuldade de acesso a drogas antigas e baratas, por falta de interesse das farmacêuticas, e também às novas, por causa do alto custo".

Ou seja: se o paciente não tem condições de adquirir a nova medicação, pode ver suas chances de sobrevivência diminuírem drasticamente por não terem condições de comprar o medicamento novo.

Maiolino afirma: "Por mais antiético, absurdo e quase criminoso que seja imaginar a falta de um medicamento imprescindível, a indústria não é obrigada a produzi-lo. Nem aqui e nem em outros países".

Para a POEMA, saúde não é mercadoria. Defendemos um sistema público de saúde, de qualidade, para todas as pessoas e financiado com impostos progressivos, isto é, quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos. Desejamos este sistema de saúde inclusive para os liberais que pensam que tudo, até a saúde, deva ser mercantilizado e dar lucro para poucos ao invés de bem-estar para muitos.

* http://bit.ly/2ui0WGL

Quem são os "vagabundos"

É comum ouvir por aí gente dizendo que são os empresários que produzem a riqueza. É sempre a mesma cantilena: todos os bens e serviços de que a economia dispõe seriam obra de indivíduos empreendedores, que possuiriam ideias, dinheiro e coragem para enfrentar riscos.

Está fora de questão entrar em longa discussão filosófica sobre o que é uma "ideia", sobre a possibilidade de haver propriedade privada de algo fundado na universalidade da razão, fruto do esforço de todos os seres humanos que já estiveram sob o sol e do patrimônio genético de nossa espécie. Cabe apenas dizer que, em geral, "ter uma ideia" depende de condições que transcendem as capacidades e habilidades de um indivíduo isolado.

Mas quanto ao "dinheiro", bem, é preciso dizer que ele não nasce em árvore e sim no berço. No capitalismo amplamente consolidado, apenas muito raramente e de modo muito residual quem tem dinheiro trabalhou duro para obtê-lo. Via de regra, quantias significativas de dinheiro são obtidas ou pela herança, e/ou exploração do trabalho alheio, e/ou roubando, e/ou ganhando na loteria. 

É evidente que um ou outro trabalhador melhor remunerado pode poupar durante muitos anos e chegar a ter uma quantia significativa de dinheiro. No entanto, cabe dizer que os postos de trabalho melhor remunerados quase sempre estão vinculados a exigências educacionais inacessíveis à maioria das pessoas, constituindo assim uma espécie de "herança". 

É claro também que o dinheiro herdado, ou roubado, ou ganho no jogo de azar se originou ele próprio na exploração do trabalho alheio, posto que o dinheiro, em qualquer que seja sua forma histórica concreta, é apenas a representação convencional do valor, cuja origem é simplesmente o trabalho¹. 

É claro também que quem já tem dinheiro pode sempre multiplicá-lo no passe de mágica da acumulação financeira, comprando títulos, apostando com derivativos etc., mas é claro que esse processo apenas concentra poder de dispor sobre uma economia real dada (bens e serviços disponíveis), não criando riqueza nova, já que a fonte da riqueza é o trabalho vivo, que disponibiliza bens e serviços.

Quanto ao "risco", é preciso dizer o que todo empresário sabe: via de regra, foge-se dele como se foge do banho no frio. A acumulação de capital exige aversão ao risco. E, diante de qualquer imprevisto, o ônus da adversidade é jogado, em primeiro lugar, sobre as costas daqueles que vivem do próprio trabalho. 

Vale dizer que o desemprego conjuntural* é em larga medida provocado pela aversão ao risco. Em um contexto de crise, como o nosso, o capitalista olha para o mercado e não vê para quem poderia vender mercadorias e serviços. A primeira coisa que ele faz é demitir pessoal e deixar parte de seus meios de produção ociosos, enquanto esfola os trabalhadores remanescentes. Se tiver dinheiro sobrando, irá fugir do risco e aplicá-lo em títulos de dívida pública, por exemplo, evitando o investimento produtivo e consolidando a taxa de desemprego. 

Assim, no geral, os trabalhadores ficam desocupados por razões que transcendem a simples vontade de trabalhar, mas a ideologia do mercado está sempre de prontidão para taxá-los de "vagabundos". 

Mas afinal, quem são os vagabundos?

Um empresário não possui mil cabeças, não possui dois mil braços, não possui duas mil pernas, muito embora usufrua da recompensa sobre o trabalho de mil homens e mulheres.

É justamente isso o capitalismo: um modo de produção que permite a uma ínfima minoria se livrar da maldição bíblica do trabalho e levar uma vida de rei dos reis. Outras poucas pessoas, que conseguem mais que sobreviver², comportam-se, no geral, como súditas fiéis, sempre dispostas a adorar os ídolos do capital e a cumprir os seus ritos, amaldiçoando os que levantam o véu da aparência das economias de mercado. 

Já a imensa massa trabalhadora tem sempre que tirar o suor da testa não apenas para o próprio pão, mas também para o banquete do patrão. Isso quando a própria dinâmica capitalista não lhe priva o acesso ao trabalho, não lhe restando para comer nem o pão que o diabo amassou. 

O capitalista nada mais é do que aquele que se livra do fardo do trabalho, unicamente porque o joga sobre costas alheias. Tem também o pobre capitalista para quem o fruto do próprio trabalho se multiplica como milagre, mas se subirmos o alçapão da caixa registradora, lá embaixo estará sempre a exploração dos demais. 

O que é mais-valia?

Falando de modo simplificado, "mais-valia" é o excedente de "valor" produzido pelo trabalhador, que é apropriado privadamente pelo seu patrão.

Intuitivamente, os/as trabalhadores/as sabem muito bem que não importa o quanto se matem de trabalhar, são sempre os patrões que ganham algo com isso. O conceito de "mais-valia", desenvolvido por Karl Marx (1818-1883), explica por que e como isso ocorre.

Para entender o conceito, precisamos entender o que é "valor". Mas, para entender o que é valor, precisamos ter uma boa noção sobre o que é uma economia.

O QUE É ECONOMIA?

Economia, de modo extremamente simplificado, é o processo de produção e reprodução das condições materiais de vida, ou seja, é o processo de produção dos bens e serviços de que as pessoas precisam para viver. De modo geral, "valor" é algo que diz respeito a esses produtos.

Cada produto possui, ao mesmo tempo, um "valor de uso" e um "valor de troca". Por exemplo, o valor de uso de um sapato é servir para calçar, proteger os pés etc. O valor de troca desse mesmo sapato é o "valor" pelo qual ele pode ser equiparado a outros produtos. Por exemplo, um sapato vale o equivalente a duas camisetas, a três bermudas ou a quinze pares de meias. E é claro que não faz sentido trocar algo que não sirva para nada.

Deste modo, o que é propriamente o "valor" que permite valores de uso distintos serem equiparados?

Para que produtos possam ser equiparados, eles devem possuir uma base comum à qual eles possam ser reduzidos e a partir da qual possam se diferenciar.

Um sapato para calçar, por exemplo, é tão útil quanto uma casa para morar. Vamos imaginar que alguém possua duas casas e não possua sapatos e que outra pessoa possua dois pares de sapatos e não possua casa. Se as "utilidades" em si mesmas se equivalem, a princípio poderia haver, no nosso caso, uma troca entre uma casa e um par de sapatos... Mas não é isso que ocorre. Intuitivamente, sabemos que essa troca não seria nem um pouco justa... Mas o que estamos pressupondo para que a injustiça dessa troca faça sentido? É muito simples: fazer uma casa dá muito mais trabalho do que fazer um sapato!

Assim, a base comum em relação à qual produtos distintos podem ser comparados é o tempo de trabalho necessário para fazê-los. Em uma palavra, valor é trabalho.

O "trabalho" aqui considerado não é o trabalho específico de sapataria, nem o de alvenaria etc. O valor não diz respeito a nenhuma forma concreta de trabalho. O trabalho considerado pela economia política é o trabalho enquanto capacidade abstrata de produzir qualquer coisa que seja de algum modo útil e o tempo de trabalho considerado na determinação do valor é o tempo social médio, porque o tempo de trabalho é determinado de modo global pelo nível de desenvolvimento das forças produtivas e pelo nível de divisão do trabalho de uma dada sociedade em um dado modo de produção.

É preciso também dizer que o valor não é o "preço". O preço é apenas a expressão monetária do valor e são os preços, e não os valores das mercadorias, que estão sujeitos às flutuações próprias à disponibilidade no mercado. Se alguém perdido em um deserto tivesse o azar de encontrar um cruel vendedor de água que seguisse à risca os ditames da lei da oferta e da procura... Bem, nossa pobre personagem provavelmente perderia a vida e todo o dinheiro no bolso. Mas o preço cobrado pela "venda" da garrafa de água nesta circunstância em nada alteraria o tempo social médio para a "produção" que torna disponível a mesma garrafa de água no mercado e a escala de valor para a qual os preços tendem a convergir em condições normais. 

A compreensão do trabalho vivo como determinação do valor faz eco, por exemplo, quando se ouve por aí, nos noticiários de economia, pessoas falando em "valor agregado". Em resumo, produtos que dão menos trabalho para serem feitos têm menor "valor agregado" e, via de regra, possuem menores preços.

Em uma sociedade capitalista, que não é uma sociedade produtora de garrafas de água no deserto, mas sim, como qualquer economia, é uma sociedade produtora de meios de vida em condições normais, as mercadorias sempre seguirão a lei do valor, que pode ser simplificada da seguinte maneira: o que dá menos trabalho vale menos, o que dá mais trabalho vale mais. É assim que foguetes, por exemplo, costumam sempre valer mais do que a maioria dos produtos disponíveis no mercado, e que garrafas de água costumam valer menos do que garrafas de suco de laranja, que valem menos do que máquinas de espremer laranjas etc.

É claro que a sociedade capitalista não é apenas produtora de meios de vida. A marca distintiva do capitalismo em relação a outros modos de produção é o fato de que o acúmulo de dinheiro, como reserva de valor, é o objetivo que orienta todo o esforço econômico. A competição pelo acúmulo de dinheiro como um fim em si mesmo, por si só, produz grandes distorções entre a esfera dos preços relativos, que determina o acúmulo maior ou menor de dinheiro, e a esfera do valor, que no dia a dia da vida sob o capitalismo permanece ocultada por uma grossa camada de cifras. Além disso, o capitalismo é pródigo em multiplicar as "necessidades" humanas, visto que o objetivo central não é apenas disponibilizar meios de vida, mas sim acumular poder financeiro. 

O TRABALHO E O TRABALHADOR

Ora, mas onde entra a "mais-valia" ou "mais-valor" nessa história toda? Vamos mais uma vez seguir por meio de simplificações didáticas...

Uma sociedade capitalista, como a nossa, está divida entre aqueles que detém dinheiro sobrando e meios de produção (as fábricas, as máquinas, os instrumentos de trabalho, as instalações, os insumos etc.) e aqueles que não possuem nenhuma outra propriedade senão a sua força de trabalho. É claro que os trabalhadores possuem roupas, móveis, celulares, podem até possuir uma casa, um carro etc., mas isso não é "propriedade" no sentido usado aqui. Ou seja, propriedade diretamente vinculada ao processo produtivo de uma economia. Aliás, quando os socialistas falam em "socializar a propriedade privada", trata-se apenas dos meios de produção¹.

Esta separação entre trabalhadores e meios de produção se deu historicamente, isto é, nem sempre foi assim. A classe capitalista se tornou dominante, mais ou menos ao longo dos últimos cinco séculos, por meio da luta política contra a classe proprietária que a precedeu (a aristocracia feudal) e, conforme ia crescendo seu poder político, conforme a economia passava a se basear irreversivelmente nas trocas mercantis e o dinheiro ia por si só se convertendo em poder, a burguesia consolidou-se, ela própria, como classe dominante.

Politicamente, a burguesia orientou o desenvolvimento comercial, o processo de colonização, a formação de um mercado mundial e a formação dos modernos Estados nacionais. Financeiramente, a burguesia tornou-se rica a tal ponto que poderia mover enormes contingentes de forças produtivas, chegando, em determinado momento, a poder investir na implementação de tecnologia na produção, o que a tornou rica de um modo que era inimaginável em formações sociais precedentes.

Mas qual a origem da "riqueza" da classe capitalista?

Historicamente, a acumulação primitiva da propriedade privada dos meio de produção e do dinheiro se deu com base na usura, no saque colonial, na escravização, no massacre de povos originários, na guerra de pilhagem, no roubo legalizado, na expropriação das terras com expulsão dos camponeses que virariam trabalhadores assalariados nas cidades, na mais brutal superexploração da força de trabalho no nascente capitalismo industrial, dentre outros métodos "idílicos" e de grande "mérito".

A partir disso, estavam lançadas as bases que naturalizaram a exploração capitalista da força de trabalho. Um capitalista não possui mil cabeças, dois mil braços, não é exatamente o capitalista quem "trabalha", mas, se tiver dinheiro e meios de produção suficientes, pode pagar pela força de trabalho de mil trabalhadores.

A força de trabalho, no capitalismo, é uma mercadoria como qualquer outra. Mas, então, o que determina o seu valor? O valor da força de trabalho é o equivalente ao que é necessário para produzi-la enquanto tal. Ou seja, o valor da força de trabalho é o equivalente em meios de vida para a manutenção dessa mesma força de trabalho, de modo que o salário nada mais é do que o preço relativo a esse valor*.

Só que a força de trabalho, como "mercadoria", além de possuir um valor de troca também possui um valor de uso. E para que serve a força de trabalho? O que distingue a força de trabalho em relação a todas as demais mercadorias é o fato de que a força de trabalho produz valor. Pois é o trabalho vivo o que produz o conjunto dos bens e serviços de que dispõe uma economia. Porém, o valor produzido pela força de trabalho não se limita ao que é apenas necessário para manutenção da vida dos trabalhadores, ou seja, para pagar seu salário.

Valor é trabalho em todas as formações sociais e econômicas humanas que já existiram na face da Terra. E em todas as economias existentes até agora sempre existiu algum tipo de produção excedente. Em muitas formações sociais da América antes da colonização, tribos também produziam excedentes, muito embora não houvesse comercialização desse excedente e não houvesse, na maioria dos casos, uma classe social dominante que se apropriasse dele**.

A um oceano de distância, na Europa feudal, os camponeses produziam para si mesmos, com seus próprios meios de produção, os meios de vida necessários e um excedente que era apropriado pela aristocracia feudal ociosa. De modo que não é apenas no capitalismo que podemos dizer que existe apropriação por uma parcela da sociedade - que em geral não trabalha - do excedente econômico socialmente produzido.

Mas algumas coisas mudaram da formação social feudal para a formação capitalista. O servo, além de produzir o excedente, produzia para si mesmo em espécie (grãos, carne, couro etc.), e as trocas não desempenhavam um papel central nessas economias. Já o trabalhador necessariamente trabalha com meios de produção alheios e recebe por isso um salário com o qual deverá comprar seus meios de vida. Alguém poderá dizer que o trabalhador, diferentemente do servo, é "livre", mas experimente algum trabalhador "escolher livremente" não vender sua força de trabalho para ver o que acontece... 

Outra coisa fundamental que mudou de uma formação social para outra foi que o capitalista, diferente do aristocrata, é caracterizado pelo uso do seu capital para produzir cada vez mais capital. O capitalismo é essencialmente esse processo ininterrupto pelo qual dinheiro e meios de produção são convertidos em mais dinheiro, mais meios de produção, mais produtos, mais poder. Mas como isso é possível?

Ora, é aí que entra a "mais-valia".

Dada a definição do valor da força de trabalho, dado que uma força de trabalho, ao longo de sua jornada, dispende mais tempo do que seria necessário para pagar os meios de vida pelos quais ela é comprada, o capitalista pode se apropriar, ao final do processo produtivo, de mais produtos do que o equivalente ao valor dos meios de produção e da força de trabalho consumidos. Ou seja, a origem do ganho do capitalista é um excedente de produtos, de trabalho não pago ou de "valor". Em uma palavra: mais-valia.

Por exemplo, vamos imaginar um trabalhador que seja contratado para converter farinha, ovos e leite em bolos por uma jornada de 8 horas. O valor relativo à força de trabalho pode ser expresso em $50/dia, que é o equivalente aos meios de vida que esse trabalhador necessita para manter-se (comida, aluguel etc.). Em 4 horas esse trabalhador converte meios de produção no equivalente a $100, que cobrem $50 em meios de produção e os $50 relativos ao valor da sua própria força de trabalho. Nas próximas 4 horas ele converterá os mesmos $50 em meios de produção em $100 de bolo, mas não receberá seus $50 por esse trabalho. Do produto final de $200, $150 cobrirá o valor do salário e irá repor o valor dos meios de produção utilizados; no entanto, o capitalista terá como referência para sua margem de lucro na venda dos bolos no mercado os $50 que correspondem a trabalho não pago, referentes a 4 horas de trabalho. Isso dá a ideia do que Marx chama de "mais-valia absoluta". Mas poderíamos imaginar que o patrão desta confeitaria comprasse máquinas para fazer um mesmo trabalhador produzir mais na mesma jornada de trabalho, podendo extrair deste modo ainda mais valor, o que é uma das formas do que Marx chama "mais-valia relativa". 

Se o valor referente a esse excedente de produtos e de trabalho não pago é realizado pela venda no mercado, o capitalista, assim, obtém lucro, isto é, sai do processo produtivo com mais dinheiro do que possuía ao entrar, dinheiro com o qual poderá fazer mais dinheiro mediante mais meios de produção e mais exploração da força de trabalho ou com o qual ele poderá alcançar um padrão de consumo que o distingue socialmente da maioria das pessoas, que no geral apenas sobrevivem.

É claro que no capitalismo existe um setor da classe trabalhadora melhor remunerado, que possui, por essa razão, maior poder de consumo e algum poder de poupança, de tal modo que o discurso ideológico capitalista (meritocracia, trabalho livre, justiça do mercado etc.) faça algum sentido para essa parcela trabalhadora do que se convencionou chamar de "classe média". No entanto, a esmagadora maioria da classe trabalhadora experimenta tão somente a escravidão assalariada. 

É claro também que no capitalismo existem outras formas de espoliação assentadas, por exemplo, no processo de acumulação financeira, no qual dinheiro pode virar mais dinheiro sem qualquer mediação em um processo produtivo, ou pela extração de renda da terra, ou pelo comércio secundário de mercadorias etc. É claro também que neste texto, para simplificar as coisas, tomamos como modelo apenas os trabalhadores industriais e haveria uma série de considerações a fazer sobre as diferenças no processo de extração de mais-valia entre esses trabalhadores submetidos "materialmente" ao capital e, por exemplo, um operador de telemarketing, submetido apenas "formalmente" ao capital. Mas estes já seriam assuntos para outros posts. 

REFERÊNCIAS

¹ https://poema.info/artigos/por-que-socialismo/ 


*Muitas vezes paga-se salário abaixo do valor da força de trabalho. Isto impera na realidade brasileira, por exemplo. A esse fenômeno da-se o nome de "superexploração da força de trabalho". Ver: MARINI, Ruy Mauro, "A dialética da dependência".
** Sobre este aspecto, consultar: CLASTRES, Pierre, "A Sociedade contra o Estado". 

Por que socialismo?

Segundo estudo da Consultoria McKinsey, mais de 50% dos postos de trabalho no Brasil poderiam ser substituídos por máquinas e computadores¹*.

Ditadura e dívida pública

No aniversário de 53 anos do golpe militar, em uma época em que a eliminação da disciplina de história dos currículos do ensino médio é celebrada, grande parte dos jovens não viveu os anos duros da ditadura, tantos outros embarcam no revisionismo histórico para defendê-la, e todos, jovens ou não, colhemos sua herança maldita. Assim, viemos lembrar alguns fatos, sem pretensão de dar uma aula de história, mas com a intenção de escancarar mentiras que pagamos até hoje em forma de dívida pública.

No Brasil, como em outros países da América Latina, o crescimento relevante da dívida pública deu-se na época da ditadura militar. O alinhamento do Brasil com os EUA no auge da Guerra Fria foi o pano de fundo da elevação da dívida pública brasileira de cerca de US$ 3,3 bilhões para cerca de US$ 105 bilhões¹, um crescimento de 32 vezes, como mostramos no gráfico.

Uma dívida feita por um governo ilegítimo, sem transparência do processo, e sem uso do dinheiro para o benefício da população (a dívida pública beneficiou as elites brasileiras e financiou a repressão) são os critérios para que, à luz do direito internacional, a dívida seja anulada por ser odiosa, e, portanto, ilegal. Esse critério (pasmem!) já foi utilizado duas vezes pelos EUA, quando anularam a dívida de Cuba com a Espanha ao final da Guerra Hispano-Americana no final do século XIX e, mais recentemente, quando anularam a dívida iraquiana feita por Saddam Hussein. Tão logo anularam a dívida iraquiana, os EUA trataram de varrer ideologicamente o conceito de "dívida odiosa" para debaixo do tapete, temendo que todos os países que passaram por ditaduras alinhadas com os EUA se utilizassem dessa mesma ferramenta².

Delfim Netto, Ministro da Fazenda durante 13 dos 21 anos da ditadura, quando indagado por um repórter se não era perigoso pegar dinheiro emprestado, respondeu: “Estamos usando a poupança dos outros para gerar nosso desenvolvimento. Que perigo tem isso?”. O que alguns chamam de “milagre econômico” foram apenas migalhas jogadas ao povo durante o crescimento da dívida pública de US$4 bi para US$12 bi. Deixamos para nossos leitores julgarem se Delfim Netto era apenas ingênuo.

Outro aspecto pouco noticiado mas bastante perverso da dívida celebrada por Delfim Netto é que as dívidas foram contratadas com taxas de juros "pós-fixadas". Assim, as taxas de juros foram elevadas unilateralmente pelos credores, no final dos anos 70, de cerca de 5% ao ano para mais de 20% ao ano, em uma reação do governo americano à crise do petróleo que ameaçava comprometer internacionalmente a cotação do dólar. A elevação unilateral da taxa de juros foi considerada ilegal pela Convenção de Viena³.

Poucos anos depois este endividamento cobrou seu preço: os “socorros” e as medidas de austeridade impostas pelo FMI ao Brasil foram as maiores causas de termos considerado a década de 1980 como a “década perdida”, ao final da qual, em 1987, declaramos a moratória da dívida.

De lá para cá, mesmo com o fim da ditadura militar, o mecanismo da dívida pública segue inalterado: a dívida segue a crescer por mecanismos puramente financeiros, segue não questionada (mesmo que uma auditoria da dívida esteja prevista na Constituição de 1988), e o governo continua legitimando cortes severos a direitos sociais para satisfazer ao Deus Mercado e honrar religiosamente os pagamentos de uma dívida ilegal e ilegítima.

Parafraseando George Santayana, os ignorantes sobre a história estão fadados a repeti-la. Ignorar a herança maldita da ditadura militar é perpetuar seus impactos perversos e escravizar economicamente o povo brasileiro.

REFERÊNCIAS

¹ goo.gl/L5GmeO
² goo.gl/D9ICDB
³ goo.gl/O3jW7H

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